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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Vasco Pulido Valente


O romantismo voltou - VPV - in PUBLICO
11/09/2015
Um debate
12/09/2015
A doença de Portugal
13/09/2015

"Vinte e cinco anos depois da queda do Muro, o romantismo político voltou. Para ficar

A gente vária e geralmente analfabeta que manda na televisão e nos jornais decidiu que o debate entre o dr. António Costa e Passos Coelho seria decisivo para a campanha e, naturalmente, para a eleição. Claro que não foi. Foi um espectáculo no Museu da Electricidade, caótico e repetitivo, que não “esclareceu” ninguém.

Cada um dos candidatos representou a personagem que lhe estava destinada – António Costa a de chefe popular com um programa debaixo do braço e de quando em quando uma ocasional berraria; e Passos Coelho a de estadista paciente e sereno que mete na ordem um secretário de Estado incómodo. Os portugueses parece que gostaram mais de Costa do que de Coelho, porque detestam a autoridade e gostam de lhe assobiar às canelas do outro lado da rua.

Do essencial não se falou. António Costa não se permitiu explicar com que dinheiro vai emendar as desgraças do seu pobre país – ponto que também não interessou aos jornalistas que alegadamente “dirigiam” o debate. E Passos Coelho também não se deu à excessiva franqueza de nos confessar o que se propunha fazer do país nos próximos quatro anos. Nada disto espanta. Os portugueses só têm uma pergunta na cabeça: vamos ficar pior com o dr. Costa ou com Passos Coelho? Pelas cenas do Museu da Electricidade, ficou a impressão de que o público que gosta de engenharia social (e Costa levou rolos de papel com os planos todos) simpatizou mais com a aventura tradicional da esquerda: a de partir alegremente com um mapa errado para sítio incerto. Em compensação, a horrenda espécie de criaturas que não se mete em sarilhos sem contar o dinheiro muito provavelmente preferiu Passos.

Acabado este intermédio, que pouco se distinguiu do concerto de uma banda qualquer, a zaragata irá continuar. Os candidatos e a sua tropa pregarão a sua mezinha, insultarão o próximo e, jurando que não prometem, continuarão como de costume a prometer, perante a indiferença do cidadão comum. O grosso do eleitorado ficará em casa, olhando com indiferença o desvario do pequeno bando que nos quer governar. Nós, por acaso, sabemos que o protectorado de Bruxelas não acabou e que uma crise nos mercados financeiros pode arruinar num minuto os mais perfeitos sonhos de homens e de ratos. Vinte e cinco anos depois da queda do Muro, o romantismo político voltou. Para ficar.
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Um debate
"O público e os comentadores gostam de excitação e de alarido, como os pacóvios gostam de ver desastres."



"Não se percebe por que razão o jornalismo português (profissional ou amador) resolveu achar que António Costa tinha ganho a Passos Coelho.

A ideia parece ser que um debate é uma espécie de altercação de taberna em que ganha quem der mais murros no adversário e se mostrar, de maneira geral, mais malcriado e belicoso. Se este modelo se aplica a uma discussão sobre o Estado e a vida dos portugueses nos próximos cinco anos, temos, de facto, razão para desesperar. António Costa gritou e esbracejou mais do que Passos Coelho. E Passos Coelho foi falando com uma certa serenidade e não permitiu que, da parte dele, a conversa degenerasse num chinfrim com o primeiro-ministro. Mas, dizem os peritos, perdeu. O público e os comentadores gostam de excitação e de alarido, como os pacóvios gostam de ver desastres.

Veio a seguir um coro geral de lamentações. Afinal, o debate não tinha esclarecido ninguém. Primeiro, porque se discutiu durante muito tempo a personagem de Sócrates (um argumento absurdo). Segundo, porque os portugueses não perceberam metade do que ouviram (a reforma da segurança social, a saúde, a troika, a dívida pública e por aí fora). Só que, se não perceberam, o único critério que lhes ficou foi a intensidade do barulho dos dois cavalheiros em presença. E isto para não entrar no capítulo das mentiras, que ferveram do princípio ao fim: sobre a bancarrota, sobre o pedido de resgate, sobre o “memorando”, sobre o melancólico facto de que, à mais pequena crise nos mercados financeiros, não haverá dinheiro para as salvíficas promessas de Costa ou para os sonhos sem sentido de Passos.

Não passou pela cabeça dos jornalistas que “presidiam” ao debate com a sua insuportável embófia perguntar às duas notabilidades que ali putativamente discursavam ao país onde tencionavam arranjar o dinheiro para a redenção da Pátria. Ao contrário do que um observador ingénuo talvez concluísse, em todo aquele espectáculo, digno de Las Vegas (e tirando uns 600 milhões que faltam à segurança social), não se ouviu a imunda palavra “dinheiro” uma única vez. Vivemos numa situação periclitante em que o menor abano pode deitar tudo abaixo. Mas naquela arena (não sei que outra coisa lhe devo chamar) não se mencionou a Europa, a América ou a China. Apesar da retórica sobre a “globalização”, Portugal acaba em Badajoz. E o dr. Costa e Passos Coelho, coitados, suspeito que também.
"

quinta-feira, 23 de julho de 2015

A zona euro são 19. E se a Grécia sai, quantos ficam?

A Estátua de Sal

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 22/07/2015)
Pedro Santos Guerreiro

(Nota: Este texto é interessante. O autor não quer acreditar que Portugal e Espanha tenham querido dificultar as negociações com a Grécia por calculismo político, querendo evitar as consequências, que um eventual sucesso da Grécia nas negociações, teria nos futuros atos eleitorais nesses países, porque isso seria sadismo. Não querer acreditar é um direito legítimo de qualquer um, porque para acreditar é preciso fé. Nesse sentido, verbera mais Juncker por ter dito a verdade do que Passos ou Rajoy por terem feito o que fizeram e por serem o que são, nas palavras do autor, sádicos. Com o enviesamento propagandístico que tem vindo a acentuar-se na linha editorial do Expresso, só me resta perguntar, parafraseando Júlio César: “Também tu, Pedro Santos Guerreiro?” – Estátua de Sal.)
A sucessão de reuniões de Eurogrupo, de cimeiras, de rondas de negociações, de encontros bilateriais, de fugas de informação e de declarações oficiais de responsáveis europeus revelou como a Europa está partida dentro das próprias instituições feitas para garantir a união. As declarações e desmentidos de hoje entre Juncker e Passos Coelho (apoiado por Cavaco) sobre a Grécia são apenas mais um reflexo dessa falha que se aprofunda. E que não prenuncia nada de bom.
Não é normal que o presidente da Comissão Europeia venha revelar quem se opunha e quem favoreceu determinadas negociações. Nem é normal que isso provoque uma reação de desmentido, ainda que educado, do chefe de Governo e do chefe de Estado de um país. Mas foi o que aconteceu ainda hoje. Em entrevista ao jornal belga Le Soir, Jean-Claude Juncker afirmou que “Irlanda, Portugal e Espanha não queriam [uma renegociação da dívida grega] antes das eleições e ficaram irritados comigo”. Já vamos ao conteúdo. Porque na forma nada disto faz sentido. Juncker quer tanto ficar na história como salvador das negociações (ou mesmo da Grécia…) que colocou a importância do seu ego acima da importância do seu cargo.
As feridas estão abertas mesmo dentro dos países, como se vê pelo caso do governo alemão, em que segundo a imprensa local se quebrou uma aliança que havia sido esteio da governação não só externa mas sobretudo interna: a aliança entre a chanceler e o seu ministro das Finanças. Angela Merkel defendeu um acordo com a Grécia, ao passo que Wolfgang Schäuble queria pura e simplesmente promover a saída do euro do país governado por Alexis Tsipras. Como escreveu o Spiegel, o afastamento gerou ressentimento na Alemanha e mal-estar com a França, que pode ter pedido uma governação a seis países nem sequer para eliminar os demais países mas para criar oposição institucionalizada à Alemanha.
A posição portuguesa conta relativamente pouco, não apenas pelo peso específico negocial mas também pela forma apascentada que nos últimos anos assumimos perante os poderosos da Europa. Dizê-lo não é sequer um juízo de valor, é uma observação. Juízo de valor é condenar o governo português por ter querido condenar a Grécia, o que foi sendo indisfarçável ao longo dos últimos meses e sobretudo das últimas semanas. Triste mas indisfarçável. E mais triste ainda se admitirmos que houve cálculo eleitoral nesse desejo. Se o governo espanhol queria que o Syriza fracassasse para dissuadir o voto no Podemos, queria o governo português o desastre na Grécia para valorizar o seu trabalho em Portugal? Não é sequer imaginável imaginar que isso pode ser verdade. Mais que calculismo, seria sadismo. Mas é o próprio Juncker que assume (as palavras são dele) o interesse eleitoral nacional como critério de gestão da negociação com a Grécia.
Pior que a falha diplomática de Juncker nas palavras de hoje é a falha tectónica entre países a favor e contra o acordo com a Grécia, que esta declaração de Juncker talvez involuntariamente até agrave. A gestão da crise mostrou a dificuldade de governo interno nas próprias instituições, que reclamam uma espécie de comité executivo menor e, portanto, mais ágil no debate e na decisão.
O problema não é o tamanho, é a representação. Se for para cristalizar o poder dos países poderosos sobre os países mais pequenos ou fragilizados, então subvertemos totalmente o processo de construção europeia, promovendo nem sequer uma federalização mas uma colonização política através de órgãos que nem sequer são eleitos pelos povos mas que dominarão as decisões que moldam as suas vidas.
É nisto que vamos acabar?

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A Festa Brava - e o referendo Grego.

Com este artigo na revista Visão, Ricardo Araújo Pereira quase que passou a merecer nome de rua em Lisboa.

Eh, toiro lindo! Olha o Tsipras!


"Portugal olha para o Syriza como o rabejador olha para o forcado da cara. Estamos com muita esperança no desgraçado que vai lá à frente e leva uma boa cornada do touro mas, com sorte, talvez consiga imobilizá-lo de modo a permitir que nós seguremos no lado do bicho que não aleija. É possível que esta metáfora tauromáquica seja injusta e não faça sentido. Não percebo o suficiente de tourada mas, agora que penso nisso, ser rabejador envolve muito mais coragem do que a que reconheço a Portugal (e a mim). Há que agarrar na ponta do boi que escoiceia. E, sem ajuda, fazer tudo para que os companheiros possam largar o toiro sem que o animal invista sobre eles. Não, Portugal não é o rabejador. Portugal é o forcado que aparece no fim da faena, já depois de o bicho estar morto, para se servir de umas fatias de acém, e que, se o animal calha a ter um espasmo, ainda faz xixi nas calças. Não sei como se chama esse forcado, mas somos nós. Angela Merkel, nesta metáfora, é o bovino. Neste ponto, não é necessária muita imaginação.
Ao que nós chegámos. Uma coisa é esperar o aparecimento de um rei falecido há séculos, outra é contar com um heleno para nos conseguir melhores condições de vida. Que é feito das fantasias tradicionais portuguesas? Onde estão as ilusões nacionais de antanho? É certo que a probabilidade de Portugal beneficiar da acção de Alexis Tsipras acaba por ser maior do que a do regresso de D. Sebastião, mas quão fracos têm de ser os nossos mitos para que um grego de 40 anos os substitua tão facilmente?
Felizmente, podemos contar com o nosso primeiro-ministro. Passos Coelho não espera nada de Tsipras. Não faz sentido combater a austeridade, porque a austeridade é nossa amiga. Dizer que a dívida é impagável é de uma desfaçatez impagável. O desemprego, o aumento da dívida e o incumprimento das metas do défice são fruto da má vontade da realidade, que se recusa a colaborar com o caminho certo. Desejar outra coisa é inútil e perigoso. Poderia gerar desemprego, aumento da dívida e incumprimento das metas do défice. Deus nos livre. De acordo com o primeiro-ministro, as ideias do Syriza são "um conto de crianças". É possível, não digo que não. Mas as ideias de Passos Coelho são, como sabemos, um filme para adultos. E o traseiro que o protagoniza, infelizmente, é o nosso."


Já quase só resta a "Liberdade de Expressão".

O “problema” dos capitães de Abril.


"Vi há pouco Mario Soares a cantar o hino com Otelo, vi uma série de indivíduos todos mais ou menos adeptos de sistemas políticos repressivos assumirem-se como donos da verdade a dizer que a liberdade e democracia são corporizadas apenas por aquilo que eles defendem, ignorando que isso sempre foi uma escolha minoritária dos portugueses. Vi uma comunicação social, no dia em que se alegadamente se celebra a liberdade, fazer reportagens militantes.
Vi uma série de apelos ao ódio, vi ódio, vi fanatismo, vi ingenuidade, vi ignorância, vi política baixa. Vi, com a digna exceção de Eanes, apenas discursos formatados pela conveniência político-ideológica de cada um.
Um 25 de Abril como os outros, portanto. Curiosamente o único dia do ano em que, em nome da liberdade e democracia, os valores e escolhas de uma maioria dos portugueses são formalmente insultados. Um dia que celebra valores que deveriam unir, mas que é o clímax do divisionismo entre portugueses. O único dia do ano em que sinto falta de liberdade, em que só há democracia e só é democrata quem estiver de um lado, o único dia em que me sinto marginalizado como português.
Pegando nos slogans do dia, falta fazer o 25 de Abril do 25 de Abril."

terça-feira, 23 de junho de 2015

The Political Power of Inertia


"... people, organizations, and other agents have diverse interests; action to try to produce change is costly; and the benefits of those costly actions are often diffuse. Under these circumstances, a tally of expected costs and benefits will often discourage agents from taking action, tempting them instead to forego those costs and look to free ride on the contributions of others instead."
"Despite our deep-rooted desire for change and spontaneity, our daily mobility is, in fact, characterized by a deep-rooted regularity."
"Even as we recognize that the calendar makes for a crude and arbitrary marker, we like to think that history visibly marches on, on a schedule we can codify.
The more I dove back into the weeds of 1964, the more I realized that this is both wishful thinking and an optical illusion. I came away with a new appreciation of how selective our collective memory is, and of just how glacially history moves."


https://dartthrowingchimp.wordpress.com/2014/10/25/the-political-power-of-inertia/

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

"Theory of Financial Illusion" - Amilcare Puviani

"Teoria della illusione finanziaria"
"Die Illusionen in der öffentlichen Finanzwirtschaft"
1903

Seminal work (and Italian book) about Public Finances that, unfortunately, is not easy to locate - and has never been translated to English. The only alternative is the German version, published in 1960.

Some interesting opinions about the author's thoughts ideas and thesis included in the book and about the subject:


 "In 1903, Amilcare Puviani, one of the great personalities of the Italian public finances, published his seminal work Teoria della ilusione finanziaria (Theory of Financial Illusion), which grounded – as mentioned by the title – he theory of fiscal illusion, which later on was adopted and developed by the so-called "Public Choice School". Mentionable in this case is the fact that the Italian theorist introduced the theme of "fiscal illusion" within the larger picture of "political illusion". From the very beginning, we notice that, at the turn of the 20th century, the humankind acknowledged the irrefragable connection between political and economical factors. Moreover, the economical illusion proves to be a component of the political illusion.
.............................................
Coming back to Puviani's theory, let us summarise its main lines by drawing a standard portrait of the taxpayer.
   a) He ignores the types of pays allowed by the public budget;
   b) He does not know the way public expenditure is made;
   c) He ignores the public expenditure quantum and does not check pay dues;
   d) He ignores the timetable of money allotment, be it for a short or for a long term;
   e) He is not aware of the moment when the allotment of public money ceases;
   f) He ignores the goal set by the State when public expenditure is projected and executed;
   g) He ignores the immediate effects of public expenditure;
   h) He ignores the motivation brought in for public expenditure.


Since the second half of the past century, the theoretical minds who framed the thesis of "public choice" have approached the relationship between public debt and the welfare state in terms of fiscal illusion. In point of fact, the governs indebt themselves and spend money easily, almost carelessly, on social assistance. This way, the citizens – also, the virtual voters – are supplied with a makeshift and transitory welfare; on a long - term basis, the public debts appease society and, instead of increasing, they backlash the general welfare."
................................."
http://www.ejst.tuiasi.ro/Files/39/16_Dragulin.pdf

 
 
"Fiscal illusion stems from the study of Amilcare Puviani "Financial theory of illusion"1 (1903) and it is defined as the phenomenon that generates a feeling of easing the tax burden and an increase in social benefits, especially possible in those contexts in which the revenue of the State and the financing of public services are not fully known or controlled by the taxpayer.
Fiscal illusion occurs to leading taxpayers due to the mistaken perception of living in a context where there was a reduction in the overall level of taxation or even an increase in expenditure on public goods provided without any increase in taxation. Fiscal illusion becomes evident in those contexts in which an increase in provided public services is unperceived by economic agents. They do not get the perception that this increase in services is not made up during the same period of taxation, but rather through the use of public deficit. This implies a simple shift of the increase in taxation to future years, or of an increase in the supply of money, that generates inflationary pressures. Such pressures will cause increases in fiscal pressure and tax revenues, but only in future years.
_______________________________
1 The theory of “financial illusion” argued that, through the management of public finance, public rulers were used to allocate a substantial part of public financial resources to the ruling class, without the working classes knowing. Therefore, the latter were mislead by tactics and deception to come to incorrect assessments of the aims of policy choices, for example by letting them perceive a reduction in taxes while these increased."
http://www.bankpedia.org/index.php/en/100-english/f/23225-fiscal-illusion



















quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Yanis Varoufakis - and the "New Deal" of Greece and Europe

Found somewhere in the "Monde Diplomatique" today (or yesterday), an excerpt from the opinion expressed recently by Yanis Varoufakis (new Greek Finance Minister).
Since a long time I hadn't heard this kind of speech (and thought) expressed by politicians of European
caliber.


"Dans une interview à laquelle on n’a probablement pas assez prêté attention, Yanis Varoufakis [le ministre des finances grec] lâche une phrase qui vaut son pesant de signification : “nous sommes prêts à mener une vie austère, ce qui est différent de l’austérité”. Et en effet c’est très différent, radicalement différent même. Entre la vie austère et l’austérité, il y a l’abîme qui sépare une forme de vie pleinement assumée et la soumission à une tyrannie technique. Car il est certain que la sortie de l’euro n’aurait rien d’un dîner de gala. Mais c’est faire de la politique, et au plus haut sens du terme, que de prendre à témoin le peuple et de lui mettre en mains les termes de son choix : nous pourrions bien, en effet, être plus pauvres un moment mais, d’abord, sous une tout autre répartition de l’effort, et surtout en donnant à cette “vie austère” la signification hautement politique d’une restauration de la souveraineté, peut-être même d’un profond changement de modèle socioéconomique."

And following its steps, I've found one of his works, called the "Modest Proposal", about the Euro-Crisis. Written, revised and translated with the colaboration of Stuart Holland, James K. Galbraith and Michel Rocard, may be found in the links following bellow:

 
http://yanisvaroufakis.eu/euro-crisis/modest-proposal/

1 - http://yanisvaroufakis.eu/euro-crisis/modest-proposal/prologue/
2 - http://yanisvaroufakis.eu/euro-crisis/modest-proposal/2-the-nature-of-the-eurozone-crisis/
3 - http://yanisvaroufakis.eu/euro-crisis/modest-proposal/3-political-constraints-for-any-solution/
4 - http://yanisvaroufakis.eu/euro-crisis/modest-proposal/4-the-modest-proposal-four-crises-four-policies/
5 - http://yanisvaroufakis.eu/euro-crisis/modest-proposal/5-the-modest-proposal-four-crises-four-policies/

Monde Diplomatique - Mars 2015
"
Les Grecs n’ont pas besoin qu’on leur explique la signification du terme « démocratie ». Pourtant, les leçons pleuvent sur leurs têtes depuis qu’ils ont porté au pouvoir une force de gauche déterminée à tourner le dos aux politiques d’austérité qui depuis six ans les tourmentent.
....
Sur un mode arrogant, Berlin mais aussi Madrid, La Haye, Lisbonne et Helsinki expliquèrent que l’alternance à Athènes ne changeait rien, puisque la politique rejetée par les Grecs devrait être poursuivie sans aucune modification. Sur un ton plus doucereux, on susurrait la même chose à Rome, Bruxelles et Paris : « Il faut, estima par exemple le ministre des affaires étrangères français Laurent Fabius, concilier le respect du vote par l’électeur et le respect des engagements de la Grèce en matière de réformes. » Mais tous les gouvernements de l’Union européenne semblent ne se soucier que du second terme de l’équation. Et s’offusquer quand M. Alexis Tsipras insiste pour rappeler le premier.
.......
La Grèce, fait savoir son ministre des finances Yanis Varoufakis, est "déterminée à ne pas être traitée comme une colonie de la dette dont le destin est de souffrir".

..............Mais peu importe, le Gramophone européen ne cesse de répéter : « La Grèce doit respecter ses engagements ! » (lire « Dette publique, un siècle de bras de fer »). Sclérosée dans ses certitudes, la sainte alliance refuse même d’entendre le président des Etats-Unis quand il explique, encouragé dans son analyse par une armada d’économistes et d’historiens : « On ne peut pas continuer à pressurer des pays en dépression. A un moment donné, il faut une stratégie de croissance pour pouvoir rembourser ses dettes»
...........
L’effondrement économique que la Grèce a subi depuis six ans est comparable à celui que quatre ans de destructions militaires et une occupation étrangère avaient infligé à la France pendant la première guerre mondiale.
.............
On comprend alors que le gouvernement de M. Tsipras bénéficie dans son pays, y compris à droite, d’un énorme appui populaire quand il refuse de prolonger une politique aussi destructrice. Et de se résigner à survivre « comme un drogué qui attend sa prochaine dose».............
Avec l’Espagne, le Portugal, l’Irlande, le mobile du crime est encore plus sordide. Les populations de ces Etats auraient en effet intérêt à ce que la main de fer de l’austérité cesse enfin de les broyer. Mais leurs gouvernements ont peur ....
.....
Chacun sait en effet qu’à moins de parvenir à « tirer du sang à une pierre », la dette grecque ne sera jamais remboursée. ..........
...........
Et l’avenir fait penser à ce qu’écrivait la philosophe Simone Weil à propos des grèves ouvrières de juin 1936 en France : « Nul ne sait comment les choses tourneront. (…) Mais aucune crainte n’efface la joie de voir ceux qui toujours, par définition, courbent la tête la redresser. (…) Ils ont enfin fait sentir à leurs maîtres qu’ils existent. (…) Quoi qu’il puisse arriver par la suite, on aura toujours eu ça. Enfin, pour la première fois, et pour toujours, il flottera autour de ces lourdes machines d’autres souvenirs que le silence, la contrainte, la soumission » Le combat des Grecs est universel. Il ne suffit plus que nos vœux l’accompagnent. La solidarité qu’il mérite doit s’exprimer en actes. Le temps est compté."

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Freedom, Parliamentarism, Civil Rights and Political Rights. - Alfred Fouillée

Alfred Fouillée
"Erreurs sociologiques et morales de la Sociologie"
"Revue des deux Mondes"
1909
“If I make personal use of my right to go and come from Paris to Marseille, I do not prevent you from going from Paris to Marseille; 
the exercise of my civil right does not remove yours. 
But when I send a deputy to the Chamber who will work at your expense for measures you have always protested, this manner of governing myself implies a manner of governing you which distresses you and which could be unjust
Civil right is personal freedom; political right is a right over others as well as oneself.

Political Parties: A Sociological Study of the Oligarchical Tendencies of Modern Democracy - Robert Michels

Direct, or Representative, Democracy  - and the view of
Robert Michels
1915
 ""The technical specialization that inevitably results from all extensive organization renders necessary what is called expert leadership
Consequently the power of determination comes to be considered one of the specific attributes of leadership, and is gradually withdrawn from the masses to be concentrated in the hands of the leaders alone. Thus the leaders, who were at first no more than the executive organs of the collective will, soon emancipate themselves from the mass and become independent of its control."

Yet this politically necessary principle of organization, while it overcomes that disorganization of forces which would be favorable to the adversary, brings other dangers in its train. We escape Scylla only to dash ourselves on Charybdis.
Organization is, in fact, the source from which the conservative currents flow over the plain of democracy, occasioning there disastrous floods and rendering the plain unrecognizable.

"Organization implies the tendency to oligarchy. In every organization, whether it be a political party, a professional union, or any other association of the kind, the aristocratic tendency manifests this very clearly. 
The mechanism of the organization, while conferring a solidity of structure, induces serious changes in the organized mass, completely inverting the respective position of the leaders and the led ...
As a result of organization, every party or professional union becomes divided into a minority of directors and a majority of directed."

"With the advance of organization, democracy tends to decline. "

 

"For democracy ... the first appearance of professional leadership marks the beginning of the end, and this ... on account of the logical impossibility of the “representative” system, whether in parliamentary life or in party delegation.
Jean Jacques Rousseau may be considered as the founder of this aspect of the criticism of democracy. He defines popular government as the exercise of the general will” and draws from this the logical inference that “it can never be alienated from itself, and the sovereign — who is nothing but a collective concept — can only be represented by himself. 

Consequently the instant a people gives itself to representatives, it is no longer free.”
A mass which delegates its sovereignty, that is to say transfers its sovereignty to the hands of a few individuals, abdicates its sovereign functions. For the will of the people is not transferable, nor even the will of the single individual."""Victor Considerant ... also followed in the tracks of Rousseau: “If the people delegate their sovereignty, they resign it. The people no longer govern themselves; they are governed. . . . Then, People, delegate your sovereignty! I guarantee you a fate the opposite of Saturn's: your sovereignty will be devoured by your daughter, the Delegation.”"





"Carlo Pisacane, the theorist of the national and social revolution in Italy, expounds in his "Saggio sulla Rivoluzione" how the men in whose hands supreme political power is placed must, from their very nature as human beings, be subject to passions and to the physical and mental imperfections therefrom resulting.
For this reason the tendency and the acts of their rule are in direct contrast with the tendency and the acts of the mass ... "


"Victor Considérant fiercely opposed the theory that popular sovereignty is guaranteed by the representative system. Even if we make the theoretical admission that in abstracto parliamentary government does indeed embody government by the masses, in practical life it is nothing but a continuous fraud on the part of the dominant class. Under representative government the difference between democracy and monarchy, which are both rooted in the representative system, is altogether insignificant — a difference not in substance but in form. The sovereign people elects, in place of a king, a number of kinglets.Not possessing sufficient freedom and independence to direct the life of the state, it tamely allows itself to be despoiled of its fundamental right. The one right which the people reserves is the “ridiculous privilege” of choosing from time to time a new set of masters."

"To this criticism of the representative system may be appended the remark of Proudhon, to the effect that the representatives of the people have no sooner been raised to power than they set to work to consolidate and reinforce their influence. They continue unceasingly to surround their positions by new lines of defense, until they have succeeded in emancipating themselves completely from popular control. "

. 
"Gaetano Mosca speaks of “the falsity of the parliamentary legend.” He says that the idea of popular representation as a free and spontaneous transference of the sovereignty of the electors (collectivity) to a certain number of elected persons (minority) is based upon the absurd premise that the minority can be bound to the collective will by unbreakable bonds.
In actual fact, directly the election is finished, the power of the mass of electors over the delegate comes to an end.


The deputy regards himself as authorized arbiter of the situation, and really is such. 
If among the electors any are to be found who possess some influence over the representative of the people, their number is very small; they are the big guns of the constituency or of the local branch of the party. In other words, they are persons who, whilst belonging by social position to the class of the ruled, have in fact come to form part of the ruling oligarchy."

"This criticism of the representative system is applicable above all in our own days, in which political life continually assumes more complex forms.
As this complexity increases, it becomes more and more absurd to attempt to “represent” a heterogeneous mass in all the innumerable problems which arise out of the increasing differentiation of our political and economic life.
To represent, in this sense, comes to mean that the purely individual desire masquerades and is accepted as the will of the mass.
In certain isolated cases, where the questions involved are extremely simple, and where the delegated authority is of brief duration, representation is possible. But permanent representation will always be tantamount to the exercise of dominion by the representatives over the represented."








segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Orçamento Geral de Estado - 2015?


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

E como se altera, para coisa melhor, esta Democracia (ou Oligarquia)?



Definição de Oligarquia - É uma estrutura de poder na qual o domínio efectivo do colectivo se encontra sob as rédeas de um numero reduzido de pessoas. Essas podem pertencer a grupos como a realeza, ligações familiares, semelhança de educação, associação corporativa, controlo religioso ou militar. Tais Estados são frequentemente controlados por reduzido número de famílias proeminentes que tipicamente passam a sua influência duma geração para a seguinte. Plutocracia ou monarquia são subclasses da oligarquia.



"No sec. IV antes de Cristo, depois da restauração da democracia dos golpes oligárquicos, os atenienses usaram o sorteio para a nomeação dos membros do governo (e altos funcionários públicos) de forma a contrariar aquilo que, de forma aguda, viam como uma tendência para a oligarquia, se a uma classe de profissionais da governação fosse facilitada  a utilização a sua sabedoria, experiência e habilidades em beneficio próprio e de familiares."

 

"A essência do poder oligárquico não está na herança de pais-para-filhos, mas na persistência de uma certa visão do mundo e numa certa forma de vida .... Um grupo dominante é um grupo dominante desde que consiga nomear os seus sucessores .... Quem exerce o "poder" não é importante, desde que a estrutura hierárquica se mantenha sempre a mesma."
George Orwell


Wealth, in even the most improbable cases, manages to convey the aspect of intelligence.
John Kenneth Galbraith

"Les hommes sont comme les chiffres, ils n’acquièrent de la valeur que par leur position"
Napoleão Bonaparte


Como se sabe (a propósito do voto), a popularidade pode decorrer de várias razões e alguns dos argumentos que a impulsionam (riquesa/posição ... ou exposição publica em "palco" dourado)  tem pouco a ver com a capacidade de guiar (governar) bem (com beneficio para a maioria votante). A popularidade também se compra.
Bem sabemos que para se poder liderar é necessário o consentimento, qualquer que seja a sua natureza. Mas como se poderá encontrar liderança consentida, quando esta resulte duma disputa entre demagogia exuberante, esbanjadora, populista e ignorante - contra uma sabedoria discreta, contida mas verdadeira?

Naturalmente que o ideal poderia ser uma sabedoria verdadeira, exuberante, prospera e popular ... mas poucas vezes esse prémio sai na rifa de forma natural.


Portanto parece que, apesar de toda a "sujidade" que se tem visto fluir nas modernas governações democráticas,  a corrente continuará a seguir o seu caminho - mas nada impede que sejam feitas obras "hidraulicas" no seu percurso para evitar "excessos da natureza" e, até, tirar algum proveito da "força da gravidade e da energia do sol".

Nada impede, é como quem diz: o "busílis" da questão está nas conveniencias de alguns e no consentimento do rebanho - ou no controlo do sua opinião e  comportamento. Quem controlar a opinião do rebanho, talvez o possa levar para qualquer lado e legitimar qualquer "atrocidade". E se a "sujidade" que se tem visto fluir for conveniente aos pastores, e se esta não "incomodar" demasiado o rebanho, porquê mudar?



A propósito da representatividade do regime (neste caso da primeira Republica, mas aplicável ao actual democrático também), aqui vai uma "pérola" de V.P.V.:

"Pouco depois do 5 de Outubro (Queda da Monarquia e implantação da Republica) António José de Almeida (aliado de Afonso Costa e 6º Presidente da Republica) perguntou, melodramaticamente, se 300.000 republicanos chegavam para "manter em respeito" 5 milhões de portugueses. A pergunta era boa, sobretudo porque, na melhor das hipóteses, os republicanos não passavam de 100.000."
(menos de 2%)

Vasco Pulido Valente - in “A República Velha 1910-1917

A expressão ""manter em respeito"" parece ser aqui um eufemismo interessante.



  


 

Para que exista verdadeira democracia tem de haver cidadania. E para que essa cidadania não seja um conceito vazio, os cidadãos necessitam de estar dotados de sabedoria e de meios adequados; tem de estar dotados de conhecimento relevante, relações e de "musculo". Naturalmente que existem membros da comunidade nacional que detem esses atributos - mas serão a maioria dos eleitores/votantes?

Não nos esqueçamos que na Democracia de Atenas, apenas uns 10 a15% da população tinha direitos de cidadania e de voto. Os restantes 90 ou 85% (escravos, mulheres, crianças e estrangeiros) não tinha esses direitos.



Para além desse facto, aqueles que votavam, votavam directamente (não através de partidos intermediários) e tinham capacidade para pedir contas pela execução do acordado e de penalizar quem se furtasse "claramente" aos compromissos assumidos em assembleia/Ecclesia.


Que diferenças tem a maioria das democracias actuais relativamente à de Atenas de Péricles?
- Em primeiro lugar conferem o direito universal ao voto, mas conscientes de que a maioria dos votantes não consegue discernir entre o bom e o mau - e, mais ainda, não tem o poder de pedir contas, e impor consequências reais, pelo não cumprimento dos compromissos políticos assumidos por parte daqueles que recebem a procuração de governação;

 

- Em segundo lugar, a procuração de governação (voto) é passada a organizações intermediárias (partidos), onde parte dos elementos são seleccionados para figurarem em cartaz de propaganda (modelos populares) - e onde os restantes (nucleo) são, tendencialmente, representantes (familia) dos grandes clãns do poder ou finança,  profissionais da manipulação social, do equilibrismo de poderes e da demagogia.


Assim sendo o que significa cidadania nos dias de hoje? Significará o mesmo que na Atenas do Sec. IV BC? Será que cidadania semelhante à de Atenas continua a existir mas apenas, com nome diferente, para uns poucos? Será que o moderno significado de cidadania se aplica apenas aqueles que podendo votar, não tem qualquer meio para refrear, ou "exigir contas", àqueles em quem votam?

Muitos existiram (e existem) que não viam com bons olhos o voto universal, a começar por Platão, contemporâneo da primeira democracia. Vejamos o que diziam:

Platão, em "A Republica" , visto por Jorn K. Bramann (Educating Rita and Other Philosophical Movies)

“O antigo filósofo Grego Platão rejeitou a democracia de Atenas na base de que: tais regimes eram sociedades anárquicas sem unidade interna; que elas seguiam os impulsos dos cidadãos em vez de procurarem o bem comum; que as democracias demograficamente mais volumosas (abrangendo universo maior que Cidade-Estado) eram incapazes de permitir que um numero suficiente de cidadãos sentisse as suas vozes ouvidas; e porque tais democracias eram tipicamente dirigidas por “tolos”/"ignorantes".
Platão atacou as democracias de Atenas/Grega por serem essencialmente sociedades libertárias, onde a anarquia era confundida com liberdade. A falta de unidade coerente na democracia de Atenas levou Platão a concluir que tal forma de governo era uma mera colecção de indivíduos ocupando espaço comum em vez de ser uma forma de organização politica. 
Como resultado, Platão acusou tais democracias de não terem regras fora dos impulsos imediatos da maioria dos eleitores - e da falta de liderança resultante da noção de igualdade neste regime.
Platão sublinhava que, na democracia de Atenas, a procura individual da satisfação dos próprios desejos levava ao egocentrismo e conflito, em vez de da procura do bem comum. Pelo facto dos cidadãos serem livres de procurar e perseguir suas paixões, Platão afirmava que a liderança racional era impossível na democracia de Atenas, pelo facto dos representantes eleitos servirem as paixões dos cidadãos.”
Notas:
- A opinião de Platão sobre o assunto encontra-se amplamente retratada na sua obra “A Republica” e na alegoria da cave.

- Será de recordar que Platão viveu na época da guerra do Peloponeso, na guerra civil entre Atenas e Esparta, guerra essa que a democrática primeira perdeu para a oligárquica segunda. Será de acrescentar que durante esse período, em nome da democracia, se cometeram em Atenas irracionalidades, arbitrariedades e carnificinas barbáricas  - e que até o mestre de Platão ( Sócrates) foi  “democraticamente” condenado à morte por simples delito de opinião.



Jorn K. Bramann  (Educating Rita and Other Philosophical Movies)De acordo com Platão, o auto governo democrático não funciona porque o povo comum não aprendeu como dirigir o navio do Estado. Não estão suficientemente familiarizados com coisas tais como economia, estratégia militar, negócios estrangeiros ou com os meandros confusos da lei e ética.
Na sua ignorância eles (o povo) tendem em votar em agentes políticos que os seduzem com aparências e conversa nebulosa e, inevitavelmente, passam a encontrar-se à mercê de administrações e condições sobre as quais não tem controle – porque não percebem (ou não sabem) o que vai acontecendo ao seu redor.
São guiados por emoções, mais do que por análise cuidadosa, e são engodados para guerras aventureiras e vitimados pelas onerosas derrotas que podiam ter sido inteiramente evitadas. Esta é a forma que a Republica (de Platão) pinta a politica em democracia.
Um dos pontos mais importantes na discussão de Platão acerca de conhecimento, educação e democracia é a sua argumentação de que a democracia não funcionará – não será uma verdadeira democracia – a menos que os cidadãos estejam suficientemente preparados para ela. Este é um ponto que muitos democratas modernos partilham.
Um dos proeminentes fundadores dos Estados Unidos da América, James Madison, na sua época afirmou: Um povo que entenda ser o seu próprio governante tem de armar-se como o poder que o conhecimento dá. Um governo popular sem informação popular (relevante), ou meios para adquiri-la, não é mais do que o prólogo duma farsa ou duma tragédia, ou talvez de ambas.”
O desafio que a critica de Platão à democracia ainda põe é a questão de se saber se os cidadãos das actuais democracias estão suficientemente interessados e informados em participar, de forma significativa, no processo democrático. Assim, serão as actuais auto proclamadas democracias de facto sociedades onde o povo é “o seu próprio governante”? – onde eles estão/são suficientemente informados para estar efectivamente no controle do bem comum e/ou das suas vidas? Poderão os cidadãos dessas sociedades realmente perceber porque é que as guerras são declaradas, porque é que recursos são afectos, porque as dividas são assumidas, porquê relações são estabelecidas ou cortadas e por ai adiante? Não poderá estar a acontecer que a maioria dos cidadãos viva numa neblina cognitiva (semeada pelas elites) que os limite a votar na base de emoções básicas, convicções desinformadas, slogans apelativos e, de forma geral, com base em vagos palpites e sentimentos?
 

 John Adams   (Segundo Presidente dos Estados Unidos)



"Lembrem-se que a democracia nunca dura muito. Ela cedo se desperdiça, se esgota e se assassina. Ainda não existiu democracia que não tenha cometido suicídio.
É inútil, ou em vão, dizer-se que em democracia existe menos vaidade, menos orgulho, menos egoísmo, menos ambição ou menos avareza do que na aristocracia ou na monarquia. Essa diferença não existe e a história não demonstra o contrário.
Essas paixões são as mesmas em todos os homens, sob todas as formas de governo simples, e quando não controladas produzem os mesmos efeitos de fraude, violência e crueldade.
Quando perspectivas claras
de fácil gratificação são abertas perante a vaidade, orgulho, avareza ou ambição, é difícil até para os mais considerados filósofos e os mais conscienciosos moralistas resistirem a essas tentações."


Elazar Menachem Shach (Rabbi e politico Israelita / 1899-2001 )
Elazar Menachem Shach, politico e Rabi Israelita, acusava a democracia de ser uma maquinaria de mentiras, de noções falsas, de procura de interesses “mesquinhos” e de engano. Acrescentava que a democracia não possuía reais e humanos objectivos, dizendo: “A razão principal da democracia é o dinheiro. Um faz o que o outro lhe pede para fazer mas na procura do seu interesse particular, portanto para receber em troca aquilo que pede – e o propósito geral da transacção é de que cada um obtenha aquilo que deseja”.
(Do género – faço, ou entrego, tudo aquilo que me pedires, sem qualquer limitação ética ou moral, desde que me pagues de forma adequada)




Robert Michels (sociólogo alemão radicado na Itália / 1876-1936)


"Um dos maiores ataques académicos às bases da democracia foi feito pelo cientista político Alemão, Robert Michels, figura que desenvolveu o fundamental da teoria e ciência politica denominada “Lei-de-ferro-oligarquica” em 1911.
Michels argumentou que a oligarquia é inevitável como uma “Lei-de-Ferro”, no seio de qualquer organização, como parte das “tácticas e necessidades técnicas” de organização.
Ainda sobre o tópico da democracia, Michels afirmava que: “ É a organização que dá origem ao domínio dos eleitos sobre os eleitores, dos mandatários sobre os mandantes, dos delegados sobre os delegantes. Quem falar em organização estará a falar em oligarquia.”

E continuava defendendo: “A evolução histórica ridiculariza todas as medidas profiláticas que foram sendo adoptadas para precaver a sociedade contra a oligarquia”.  Afirmava ainda que o objectivo oficial da democracia de eliminar a elite dominante é impossível, porque a democracia é uma fachada legitimando o domínio duma elite particulare esse domínio por uma elite, que continua a ser uma oligarquia, é  inevitável."



De uma forma geral é fácil aceitar como válidas as questões colocadas no ultimo bloco do texto acima de Jorn K. Bramann. Não que o cidadão comum não seja, de uma forma geral, capaz de entender ou de se interessar pela real coisa publica. Nunca encontrei prova cientifica que me garantisse sequer  a existência de diferenciação genética entre "cidadão comum" e "cidadão superior", como se de espécies diferentes se tratasse.

A questão importante é a de saber se, após a instalação de uma forma de governo (democracia ou outra), interessa à elite que chega ao poder, ter de prestar contas da sua acção ou ter o trabalho de procurar consensos e explicar as suas motivações à massa dos seus originais apoiantes. Governar sob vigilância pode ser uma chatice, principalmente quando se tem uma livre procuração, o poder e os meios na mão.

Não seria mais fácil montar uma ficção de realidade, com dois (ou mais) “mundos” paralelos e manter os apoiantes de base (povo) tranquilos e satisfeitos num desses mundos (o ficcional), reservando o outro para a própria elite (o real)? Não seria interessante uma divisão de "mundos" em que o primeiro (destinado ao povo) fossem reservandos os "prazeres" do trabalho, da submissão, da ordem e da lei - e reservado para o segundo (elites) as "chatices" do poder, da riqueza, do dominio, do conhecimento e da força?

E, perseguindo propósitos de consolidação e perpetuação de poder, que tal reservar para o controle dessa elite aquilo que move o mundo?(criação de dinheiro e, indirectamente, controlo dos bancos, da industria c/ potencial militar, das fontes de energia e dos sistemas fiscais)? E que tal entrincheirarem-se por detrás dos bancos centrais ou duma federação de bancos centrais? Assim, poderiam dominar, e transferir herança, sem terem de se submeter à chatice, ao perigo ou à vergonha da eleição periódica de resultado incerto.
Dessa forma, garantida essa reserva de domínio exclusivo sobre o fundamental, e sabendo-se que o dinheiro ilimitado compra quase tudo, poderiam criar partidos políticos (destinados a formar governos de fácil aceitação popular). E esses partidos (preferencialmente dois por Estado), com retóricas opostas, poderiam ir a votos do povo, com programas de “faz de conta”, mas obedecendo a quem lhes “pagasse”(a dita elite) e não a quem em neles votasse.
 Assim que os votantes se fartassem de um, votariam no outro alternativo, do mesmo "dono". E como no povo a memória é tipicamente curta, 4 anos seriam suficientes para se esquececem que ambos os partidos seriam basicamente iguais. E aqueles outros alternativos que com vigor se desviassem muito (ou consistentemente) dos interesses dessa elite, atiçar-se-lhes-iam os “cães de guarda”, até se desmoralizarem ou desaparecerem.

Desta forma o povo viveria feliz e contente, assumindo que o poder estaria nas suas mãos e nem suspeitando sequer que o único poder que lhe era concedido seria o de fazer uma cruz numa folha de papel em cada "ano bisexto".

Mas seria isso assim tão simples de implementear? Não haveriam dificuldades e riscos? Claro que sim, como a necessidade de encontrar respostas a várias questões, entre as quais as seguintes:

1 - E se mesmo assim (cenário acima) a coisa não funcionasse e o perigo de mudança de dinastia se perfilasse no horizonte, o que se poderia fazer?

- Entre muitas coisas possíveis, cancelar-se-ia “sine die” a “brincadeira” do voto universal e impor-se-ia uma qualquer “lei-marcial”, mais ou menos duradoura, mais ou menos musculada, até poder-se eliminar de forma directa e rápida qualquer ameaça emergente.
2 - E qual seriam as possíveis ameaças à “dinastia reinante”?
- Poderia ser de muitas origens mas uma delas seria certamente a diluição do consentimento popular e pacífico, normalmente manifestado em baixos niveis afluência às urnas de voto - e nos desacatos e turbulência social publica.
3 - E como garantir esse consentimento?
- Entre as muitas alternativas possíveis, talvez algumas das seguintes:
a) - com a utilização das velhas soluções, usando as escolas e universidades, destinando-lhes, também, a função da montagem mental da realidade fictícia acima referida (sentimento de integração num Estado de Direito - c/ Lei, Justiça, obrigações e oportunidades iguais para todos);
b) - com a criação da convicção popular da não existência de melhores alternativas de governação;
c) - com a ridicularização da ideia de existirem sempre "dois" pesos e "duas" medidas na governação (diferentes consoante se trate do comum votante, do transitório "actor" votado ou do permanente “Duque”);
d) - com a reciclagem frequente dessa imagem a fazer-se pelos agentes culturais "subsidiados" e pelos órgãos de comunicação social do sistema;
e) – pela desarticulação das reais redes comunitárias ou de grupo que se mostrassem com vitalidade, conhecimento e independência;
 f) – pela sabotagem de quaisquer condições que favorecessem a autonomia bem sucedida de tais comunidades tendencialmente independentes;
g) - com a ocupação de todo o tempo do povo/eleitores com actividades académicas, laborais e profissionais, com o fomento do lúdico ou do entretenimento dependente - e com dispersão das atenções populares do conhecimento relevante no tocante às formas de distribuição dos recursos materiais e posicionamento social.

Tudo o que favorecer o consentimento pacífico do sistema é valioso. Tudo o que favorecer o sentimento popular de que o poder estabelecido protege e segura, é valioso. Tudo o que favorecer a ideia de que o povo é tratado pelos Estados de forma igual à das elites, é valioso. E os partidos políticos são valiosos na medida em que promovam ou mantenham esse estado de espírito na grande maioria dos governados.

Se esse ou outro muito mais elaborado cenário de controlo social foi alguma vez colocado como hipótese, é possivel que não se tenham descuidaram em testá-lo, aperfeiçoá-lo e levá-lo, no todo ou em partes, à prática.
A este propósito aqui ficam algumas frases emblemáticas de Noam Chomsky 
 (Manufacturing Consent)
"O optimismo é uma estratégia para criar um futuro melhor. Porque a menos que você acredite que o futuro possa ser melhor, é improvável que você se mobilize e assuma a responsabilidade de o realizar."
......

"Educação (publica) é um sistema de ignorância imposta."
....


"Democracia neoliberal. Em vez de cidadãos, ela produz os consumidores. Em vez de comunidades, ela produz Centros Comerciais. O resultado é uma sociedade atomizada de indivíduos que se sentem desligados, desmoralizados e socialmente impotentes."
......
"Em suma, o neoliberalismo é o inimigo imediato e principal de uma verdadeira democracia participativa, não apenas nos Estados Unidos mas em todo o planeta, e continuará a sê-lo no futuro previsível."
 





Sabemos que no presente século o incremento brutal da sofisticação tecnológica alterou, em muito, as formas de vida social e de governação humanas. Sabemos que a criação das interdependências e especializações, destinadas a suster, alimentar e ocupar a demografia em veloz expansão, retiraram autonomia de sobrevivência às comunidades locais e nacionais. Sabemos que a substituição das "War Games" pelas "Peace Games", suportadas pela Inteligência Artificial em vertiginosa (e perigosa) evolução, afastaram o comum cidadão de conhecimento relevante e do domínio de importantes partes das suas vidas. Mas, apesar disso tudo, a vida humana continua a ter o mesmo valor que antes tinha, quer se reporte a individuos dotados de grande conhecimento e poder, quer se reporte aos outros apenas aptos para os adquirir e usar em proveito dos seus semelhantes. Se a vida humana tem algum(s) propósito(s), decerto que a evolução técnica ou a subjugação do semelhante não estarão no topo da hierarquia.
Apesar da visão darwiniana - das vidas em luta pela sobrevivência e pela procriação - se poder aplicar ao ser humano, sobreviver, reproduzir-se e morrer pode não ser razão suficiente para a nossa existência e, ainda menos, para qualquer tipo de "canibalismo".

Em resumo, muita água correu debaixo das pontes desde os tempos da democracia de Atenas mas, tanto quanto nos apercebemos, a natureza humana não se alterou ... nem o sentido da vida. Portanto, mais do procurar formas perfeitas de governo humano, para humanos imperfeitos, há que ir ajustando as que temos - de forma a que o aumento de afastamento entre os extremos não leve a que uns se passem a considerar "Deuses" enquanto os outros se contentam com o estatuto de "insectos".

















Assim e a propósito da "democracia" que vamos tendo, e apesar do voto universal, muitos terão notado que a vontade do povo não tem prevalecido - e que a maioria dos eleitores tem sido de tal forma desencorajada que já nem votam. A principal razão para isso parece ter sido a compra e venda de eleições e partidos pela classe mais abastada/posicionada de cidadãos e por seus grupos especiais de interesse. Um ano ou mais antes das eleições acontecerem, o vencedor costuma já está decidido por aqueles que votam (directa ou indirectamente) com dinheiro. Mas isto é uma deficiência da democracia, não é uma razão para a abandonar. A resposta deverá ser a cura destes males e não a tentativa de a destruir.

Nota: Que me perdoem os autores de alguns destes cartoons por usá-los sem referencia de origem. De facto, dadas as alterações introduzidas quer no contexto, quer na mensagem, qyer  na forma ou formato acho que preferirão que assim seja.