quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Ponta Delgada - Avenida Infante D. Herique - 1

Uma imagem da cidade, sujeita a transformação recente e veloz que, provavelmente, dentro de dois anos já não será assim.

Já dizia o Poeta que "nada se ganha; nada se perde; tudo se transforma". Mas a verdade é que os nossos afectos vão deixando de ter o conforto da visão; vale-nos é a memória deles e o sentimento que ficou.

A Justiça criminosa, Clara Ferreira Alves

Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso.
Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.
Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia que se sabe que nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.
Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve.
Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços do enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal e que este é um país onde as coisas importantes são "abafadas", como se vivêssemos ainda em ditadura.
E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogues, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.
Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém que acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muito alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos?
Vale e Azevedo pagou por todos.
Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção.
Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo "normal" e encolhem os ombros.
Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida?
Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático?
Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico?
Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana?
Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?
Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.
No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém? As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não substancia.
E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu?
E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou?
E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente"importante" estava envolvida, o que aconteceu?
Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu.
E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente "importante", jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?
E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára?
O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.
E aquele médico do Hospital de Santa Maria suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina?
E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.
Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento. Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade.
Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os "senhores importantes" que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra.
Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade. Este é o maior fracasso da democracia portuguesa e contra isto o PS e o PSD que fizeram? Assinaram um iníquo pacto de justiça.
«Pluma Caprichosa» - «Expresso» de 20 de Outubro de 2007 - c.a.a.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Miguel Sousa Tavares
Jornal Expresso 08/12/2007
Excerto sobre a Cimeira União Europeia-África:
«Para que serve este imenso ‘bazaar’? Principalmente, para nada, como dizem os alentejanos. Tudo o que havia a discutir e a assinar, como a tão desejada por Sócrates ‘Declaração de Lisboa’, já está acordado e escrito. Mas os grandes do mundo precisam e adoram estas oportunidades mediáticas e, afinal de contas, um fim-de-semana em Lisboa, com dois banquetes e um concerto com a Marisa e a Cesária Évora pelo meio, nem é nada desagradável: os europeus aproveitam para ver sol e os africanos para ver mundo e mandarem as «madames» às compras. Não é Paris nem Londres, mas sempre é um país hospitaleiro, que gosta de receber bem e cuja política externa não incomoda ninguém e se contenta em que lhe dêem coisas inócuas e que soam bem, como a ‘Declaração de Lisboa’.»«Em concreto, a cimeira vai custar umas dezenas de milhões de euros aos portugueses, a Europa rica vai dar à África miserável 1,2 mil milhões de euros até 2010 - dos quais, como de costume, apenas cerca de 10% chegarão ao destino e terão utilidade concreta. Destarte, a Europa sacode os seus problemas de consciência, como um pai que passa um cheque ao filho ‘com problemas’ e não se preocupa mais com o assunto. Mas os produtos agrícolas de África - a sua melhor hipótese de sair da miséria - continuarão fechados aos mercados europeus para proteger a sagrada PAC e os agricultores ricos da França e outros mais e o comércio em geral continuará a ser ditado por relações de desigualdade e batota. A Europa continuará a dar peixes, mas não a ensinar a pescar. Quanto à África e aos seus ditadores de opereta, com as mãos manchadas de um sangue que não sai e os bolsos atulhados de dinheiro roubado às suas populações, limita-se a estender a mão a mais uma esmola e a agradecer a oportunidade de reconhecimento internacional por que a diplomacia portuguesa tanto se esforçou nos últimos meses.»«Esta é a triste história das relações da Europa com África de há cinco décadas para cá: os governos europeus dão umas esmolas e, em troca, avançam a seguir as multinacionais que sacam tudo o que podem sacar e enchem as contas bancárias dos governantes africanos na Suíça. Quando as cenas de miséria do continente negro se começam a tornar outra vez incómodas nas televisões ocidentais, convoca-se nova cimeira com os corruptos e dá-se-lhes mais uma esmola para aliviar as consciências ou produz-se mais uma grandiosa Declaração de Lisboa ou de Reiquejavique para enganar os tontos. Mas nunca os ricos se atrevem a exigir aos pobres que roubem menos e que matem menos - isso estragaria os negócios. Assim, a ‘Declaração de Lisboa’ não deixará, certamente, de conter uma referência ‘muito forte’ aos direitos humanos e à democracia, a qual será tranquilamente apoiada por gente estimável como Mugabe, do Zimbabwe, José Eduardo dos Santos, de Angola, ou Omar Bongo, do Gabão - que, juntos, perfazem oitenta e oito anos de poder, de arbitrariedades de toda a ordem e de negócios, mais uma sempre bem-vinda e inestimável factura de hotel em Lisboa.»