sábado, 30 de agosto de 2008

Trilho da Praia da Amora - Ponta Garça (Vila Franca) / Ribeira Quente (Povoação) - S. Miguel - Açores / Azores

Presentemente quando se fala de trilhos, está-se a referir a recreio e turismo. E até o vocábulo "trilho" veio no pacote do léxico turístico, uma vez que pela ilha de S. Miguel eram usados os termos "atalho", "caminho" ou "vereda".
Atalho não é mais do que uma ligação directa e simples, ou via de comunicação, entre dois sítios ou localidades. E, aqui, os sítios em questão eram a freguesia de Ponta Garça (Vila Franca) e o seu antigo e distante lugar denominado Ribeira Quente.



Na onda oficial de recuperação de antigos e abandonados atalhos, veredas e caminhos, e sua utilização como elementos de animação turística, a este coube a designação de PR10SMI (Ribeira da Amora).


E se existem antigos caminhos com alguma atractividade para amantes da natureza e mar, este é um deles, pois passa por várias praias e tem um percurso com belíssimas vistas costeiras. Já na sua origem era a ligação dos principais e clérigos de Vila Franca (e da Ilha) ao local de recreio e veraneio que era a Ribeira Quente.

Dando um "toque" histórico às origens da ocupação deste povoado, colocamos aqui extracto do livro de Gil Moniz Jerónimo, de titulo “Povo da Ribeira Quente … que Origem?:

"Criado pela força da Natureza no período da formação desta ilha, e talvez modificado por outras razões antes destas ilhas serem conhecidas, o litoral da Ribeira Quente e suas encostas altaneiras, quando formado povoado não o foi por quaisquer pescadores.

A sua história - esta história que está a ser contada - tem fundamentalmente outra origem.
Segundo Gaspar Fructuoso no seu tempo e antes dele, aquele primitivo e mirífico lugar de encostas irregulares que se veio a chamar de Ribeira Quente, já não era virgem. Era sim um lugar onde nasceram algumas fajãs e existia uma longa praia que era utilizada pelos principais da terra, incluindo sacerdotes e outros religiosos, assim como nobres estrangeiros
.

Esta classe de veraneantes e utentes da praia e das deliciosas águas térmicas - as da ribeira, as do fundo do mar e as da pequena casacata que nasce sobre a praia na zona da denominada "Rocha Secreta" - era, sem dúvida, uma classe social não miscível com gente de rude trabalho.


Porém, apôs um não longo interregno nos usos e costumes dessa classe privilegiada ou seus descendentes (erupção de 1630), porque podemos cerificar por dados já citados, que as fajãs tornaram a nascer em melhor qualidade e quantidade e, os veraneantes por isso voltaram.
Historicamente falando, a comunidade piscatória desta localidade só aparece superficialmente nos dados colhidos, passados que eram 160 anos.
Isto é: o predestinado lugar onde existia uma ribeira de águas mornas e praia amena, voltou a ser aquilo que já era anteriormente (local de recreio e veraneio)."

Não é difícil de imaginar como, à poucos séculos atrás, esta fajã seria: bem maior, com a praia bem mais avançada.
E tanto quanto transparece dos relatos antigos, quando se falava de praia não era desta mas sim da outra (desaparecida) entre o Fogo e a Ribeira.



"Para atingir este povoado vindo do poente, como já foi dito, só existia um perigoso e estreito atalho que partia de Ponta Garça, e de modo tal era feito que, segundo nos diz o ilustre sacerdote e escritor Bernardino José de Sena Freitas no trabalho "UMA VIAGEM AO VALE DAS FURNAS", um dia, no ano de 1679, os pescadores da Ribeira Quente se apercebendo de que os piratas argelinos (em dois xavecos) tentavam desembarcar naquela localidade onde existia, como já foi dito, um forte, foram alertar o povo de Ponta Garça e Vila Franca para tal acontecimento perigoso.


Segundo o mesmo sacerdote, a "TROPA" - milícias formadas na sua maioria por escravos e gente que nem incluía o povo desta localidade - pôs-se a caminho, mas o atalho era difícil e tortuoso, por isso quando a mesma ali chegou, já da parte da tarde, nem no horizonte se já vislumbrava qualquer sinal de embarcação alguma."


Numa outra passagem sonre o mesmo assunto pode ler-se: "Os Argelinos em 1679 desembarcando à noite de dois xavecos, saltaram na praia da Ribeira Quente, e no portinho do Agrião; contornaram a montanha, e descendo ao raiar da aurora o Vale das Furnas, roubaram alguns carneiros, e volveram para bordo dos xavecos, depois de terem praticado alguns latrocínios na Ribeira Quente".
Daqui podem concluir-se duas coisas: a primeira é de que as dificuldades em transpor atalhos por parte das "tropas" de Vila Franca não eram sentidas pelos piratas Argelinos, que treparam da R. Quente e Agrião até às Furnas, sem mapas da ilha, carregaram abastecimento e desceram novamente para a costa, num curto espaço de tempo;  a segunda é de que  as mal providas e treinadas tropas de Vila Franca talvez tenham "arrastado os pés" de tal forma que minimizassem qualquer probabilidade de contacto directo com os "temidos" salteadores e, assim, podem ter lá chegado dias depois, senão semana mesmo.
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"Indo a Vila Franca, em correição, o Desembargador Luiz Mattoso Soares, assim se expressou no ano de 1682: 'Fui informado que o caminho da Gaiteira para a Ribeira Quente é tão importante, que está provido em muitas correições que se faça o dito caminho, sem até agora se dar comprimento a eles, e tudo se resume em requerimentos, sem se obrar cousa alguma, e ouvidas as dificuldades e a importância deste caminho, não somente necessário para a passagem dos moradores, mas também importante para a defesa desta ilha, para se poder acudir à invasão dos inimigos, que poderão fazer por aquela parte, como se tem experimentado haver entrado os Mouros naquele porto, sem se poder acudir a este dano com a prontidão necessária, por falta do devido caminho que vai para a Povoação; e se me fez queixa, pelo Pároco do lugar de Ponta Garça, que alguns fregueses morreram sem sacramentos por falta destes caminhos; e por eles Oficiais da Câmara, e pessoas da Governança, que se acharam presentes, foi dito: que o dito caminho se poderia fazer com a despesa de 20$000 réis pouco mais, com a ajuda das companhias daquele distrito, o qual caminho se devia fazer com mais conveniência e segurança, por onde se chama a Grota da Amora, até sair aonde se chama a Lobeira, e o Forno, o qual caminho serão obrigados mandar fazer os Oficiais da Câmara.'""(extraido de Bernardino José de Sena Freitas, Uma Viagem ao Valle das Furnas na Ilha de São Miguel, em Julho de 1840, pp. 7-19, Imprensa Nacional, Lisboa)


 
De facto, chegar à Ribeira Quente, por atalho, a partir de Ponta Garça (ou Povoação) não deveria ser das coisas mais simples, principalmente nos meses menos secos e solarengos. Portanto, quando o trajecto se fazia convinha que fosse com planos de estadia no destino durante, pelo menos, alguns dias.

Segundo o livro acima nomeado -
"Esta desatenção, ou falta de atenção, por parte das autoridades civis e religiosas (para com as ligações/caminhos e população da Ribeira Quente), era do agrado de alguns proprietários das fajãs que desejavam manter quase só para si aquele lugar de sossego e veraneio, enquanto os vigários de Ponta Garça mantinham sempre a esperança de que o povo da Ribeira Quente devia pertencer à sua paróquia."

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Não longe do início do atalho, do lado da Ribeira Quente, aparece esta "grande" casa de veraneio e adega. No meio de actual canavial, deve ter tido, nos seus tempos altos, uma vista privilegiada sobre a costa sul e nascente da ilha. Presentemente, embora não esteja ainda em ruínas, encontra-se vandalizada e com as vinhas abandonadas e invadidas pelo canavial e outras plantas.





Pocilga ainda em bom estado.
Latrina, à moda de finais do Séc. XIX ou inicio do XX.
E uma vista impressionante, até ao limite da costa da Povoação.

O atalho é simples, em boa parte do trajecto relativamente largo, e com muita sombra do canavial marginal.








Aqui e ali nota-se a intervenção e acção dos novos "provedores de atalhos" que, com uso de "fundos europeus", reintroduziram (e bem) estas ligações viárias no imaginário dos locais, nos catálogos turísticos e na rede de vias da ilha. Quer ao nível de controlo do canavial, quer ao nível de reposição de protecção de degraus, notava-se trabalho digno de aplauso.

E pelo caminho, os pequenos areais (sem acesso fácil) entre a Lobeira e a Amora, desfilavam.





Em alguns sítios era notória antiga "maciça" intervenção humana para tornar possível a passagem e atalho.

 Ponta Garça à vista (foto abaixo), com a ponta do seu Farol ao longe.


E, logo abaixo, a primeira praia utilizável depois da R.Q.: a da "Amora-II".
 

 Praia da Amora-II (algumas fotos de 2013)




  






Alguns sinais de algum "trogloditismo" de tempos remotos ainda parecem estar presentes por aqui.
 

 



 A localização e "possança" destes estratos de piroclástos (pedra pomes) são a prova viva da violência e duração das erupções vulcânicas que por aqui existiram nos ultimos milénios.

  




 Depois de passar a Praia da Amora-II, de passar pelo calhau miudo e areal intermédio, pela foz da ribeira, pelos abandonados moinhos e furnas de barcos, chegamos à "grande" praia da "Amora-I".
Na altura o acesso ainda se fazia pelo meio de propriedade privada: a antiga (com casa) quinta do Dr. Simas. Todavia o pouco cuidado nas vinhas e bananal davam sinais de facilidade à progressão do canavial e, assim, facilitavam a "reclamação pública" do acesso à praia.





 





 






E, quase no fim da subida, encontram-se o que resta das nascentes e fontanários da zona, com algumas tímidas adaptações a "parque de merendas".
Depois do suadouro da subida, esta água fresca sabe imensamente bem ...


Praia da Amora-II, 2014, em: http://flaviusvb.blogspot.pt/2014/08/praia-da-amora-ii-ponta-garca-acores.html

Trilho vizinho: "Pico da Areia" - Furnas/R. Quente.
Versão 2014 em
: http://flaviusvb.blogspot.pt/2014/08/lagoa-das-furnas-ribeira-quente-trilho.html

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

"Depois de perdida a "sua" localização, os defensores mais qualificados da Ota estão agora a fazer, tarde e a más horas, a discussão que sempre faltou sobre o aeroporto - a discussão política. O problema do défice de discussão sobre o novo aeroporto nunca foi técnico, foi sempre político. Muita coisa que deveria ser discutida antes foi considerada fechada e apenas prejudicando a "decisão" rápida do "governo das decisões expeditas". Os defensores da Ota, certos das suas vantagens, também achavam que o que se deveria fazer era "andar para a frente". Pagam hoje o preço de ver a mesma linguagem de meia bola e força ser usada para avançar a toda a velocidade com Alcochete.

Mas o mais interessante sobre o aeroporto, sua necessidade e tipo, sua localização e impacto, o seu papel na economia nacional, sobre os "interesses" presentes e ausentes, sobre que Portugal fará o aeroporto e sobre que aeroporto precisa Portugal, sobre o efeito da "cidade aeroportuária" como chave de desenvolvimento para todo o país ou apenas para a concentração Lisboa-Setúbal, sobre os riscos de fazer mais um "elefante branco" e destruir o pouco que resta de Portugal por estragar, tudo isto está a ser dito por pessoas como Henrique Neto e José Reis (no Prós e Contras). Henrique Neto fez aliás a mais demolidora intervenção contra o "bloco central de interesses" e contra o governo que ouvi nos últimos tempos. É tão rara que até parecia chinês. Não é preciso concordar com eles sobre Ota versus Alcochete, mas a discussão que estão a suscitar é a que sempre fez falta".
Post de: Adrupto 15.1.08

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

BCP, Vara e Berardo SGPS



"A escaramuça levantada em torno da eventual subida de Armando Vara aos céus do BCP - abençoado por várias extraordinárias figuras de accionistas, desde o improvável Berardo ao ex-jornalista Ulrich cuja intervenção foi considerada "decisiva" pelos "especialistas" - vale a pena? Quando ele foi para a administração da Caixa, levantou-se idêntica escaramuça. Aí, porventura com mais razão do que agora. Agora, se bem que curta, o homem já possui alguma biografia na matéria. E não deve ser constantemente perseguido por ter tido a ideia de criar uma fundação paralela à então Prevenção Rodoviária Portuguesa, por ter concluído um curso superior na defunta Independente, numa premonitória antecipação das "novas oportunidades", ou por ter sido sócio de Sócrates e de outros numa empresa de gasolinas na Amadora onde foi candidato a presidente de câmara. Como diria o velho Shakespeare, ele é o que ele é.
A questão, parece-me, é outra.
Vara não deve nada do que é presentemente na banca à banca. Deve-o apenas ao currículo partidário e governativo. Ele e outros, de outros ou do mesmo partido. Assumir isto, os tais extraordinários accionistas assumirem isto, representa uma mudança de paradigma relativamente ao maior banco privado português - e, por tabela, ao sistema bancário nacional -, já que a CGD faz, por natureza, parte do bolo repartível entre o "centrão" mais um: o PP depois da reciclagem no governo. As últimas desvergonhas perpetradas pelas derradeiras administrações do BCP, nas quais só agora Constâncio reparou, autorizaram o avanço das patrulhas partidárias. Uma carreira puramente partidária, boa, má ou assim-assim, passou a ser mais cotada do que uma carreira exclusivamente ao serviço da gestão bancária. A culpa é de Armando Vara? "

Post de: Portugal dos Pequeninos - Publicada por João Gonçalves em 27.12.07