terça-feira, 28 de agosto de 2012

Subida ao Vulcão da Ilha do Pico - 2351m - Verão 2012


Azores - Pico Island Volcano Climbing - 2351m - Summer 2012


É verdade que a imagem dos Açores, no imaginário do residente mediano das medianas e grandes metrópoles, não tem a grandeza de outras paragens. Não tem a promoção das Seychelles; não tem os fluxos das Caraíbas nem tão pouco das Ilhas Gregas. Todavia, em termos de beleza e exotismo, não fica aquém de qualquer um deles, exceptuando naquilo que o alimenta e mantêm: um "clima" de variação frequente.

Esta introdução vem a propósito da concretização de uma intenção não recente de fazer a escalada do Vulcão da Ilha do Pico, em dia descoberto e suficientemente seco. No passado ano já se havia programado tal iniciativa mas não se conseguiu uma previsão boa, suficientemente longa e estável. Neste ano, entre a última semana de Julho e primeira de Agosto, calhou e foi algo de memorável.

O acesso à ilha do Pico, nos meses de Verão, não é complicado nem problemático. Do exterior ao arquipélago existem ligações à Ilha de S. Miguel (a maior), à Ilha Terceira ou à do Faial. A ligação ao Pico é feita através da companhia aérea regional (Sata - Air Açores); ou através dos navios da Atlanticoline ou (a partir do Faial) através dos barcos da Transmaçor "Cruzeiro ou Expresso do Canal".
 



O alojamento na ilha é compatível com a típica procura: entre 15 de Julho e meados de Agosto costumam estar lotados, mesmo depois do aumento de capacidade no Hotel Caravelas (na Madalena).
Não me parece que se justifiquem grandes comentários acerca das recentes transformações na "geografia" da Vila da Madalena (a principal Vila da Ilha) mas a verdade é que a silhueta urbana resultante da alteração do volume do hotel Caravelas, e das obras portuárias, em nada acrescentaram ao valor atribuído à ilha e viagem pelos visitantes deste destino. Felizmente existem belíssimas unidades de Turismo em Espaço Rural, Residenciais e até uma excelente Pousada de Juventude (Vila de S. Roque) instalada em antigo Convento Franciscano.

A aproximação feita de avião dá uma perspectiva bem diferente da vida neste torrão, algures no meio do Atlântico Norte. É a segunda maior ilha dos Açores, é certo, mas vista do alto denota a sua real natureza, dimensão e fragilidade.




Ao longo da rota de aproximação ao aeroporto, algures na costa Norte, próximo do Lagido, entre S. Roque e a Madalena, o majestoso símbolo da ilha sobrepõe-se a qualquer outro atractivo.


Ir à ilha do Pico, no Verão, é algo simples, seguro e fácil de programar com antecedência. Conseguir uma ou duas semanas de montanha completamente descoberta, durante o dia ou noite, já não é tão fácil.


Pousada de Juventude - S. Roque do Pico.



As tarefas de preparação de uma subida são algo que varia tanto quanto varia a natureza, experiência e pragmatismo dos candidatos. Apesar de ser obrigatória a entrada pela Casa da Montanha, com pagamento de taxa (10€/pessoa), a montanha não está vedada, razão pela qual existem alternativas de trajecto. Vimos desde pessoas a subir sozinhas, iniciando viagem de noite, com apenas umas sandálias, um impermeável, uma garrafa de litro e meio de água e uma máquina fotográfica ... até outras integradas em grupo, com guia acreditado e equipadas quase como se fossem subir aos Alpes Suíços.

No nosso caso éramos cinco pessoas, incluindo criança de nove anos, e optamos por subir sem qualquer guia. Sabíamos que todas as subidas apontavam ao topo e que todas as descidas terminariam no mar. Portanto, apenas tínhamos de evitar trabalhos desnecessários.
Como contávamos subir à tarde, ver o Por-do-Sol no topo, acampar e pernoitar na cratera, e ver o Nascer-do-Sol, tínhamos de assumir autonomia completa. Conhecíamos a geografia da ilha e a "anatomia" básica da montanha; portanto, não estávamos às cegas. Cada um com a sua mochila de campismo, uma tenda de 4 pessoas para 5, sacos cama e esteiras, roupa para subir e outra muda para passar uma noite a temperaturas eventualmente negativas, 3 litros de água para cada um, muita comida - não tendo ficado esquecidos o fogareiro a gás para aquecer feijoadas, o vinho para as acompanhar, os cafés e outras comodidades e telecomunicações.


Saída de S. Roque, em direcção à Estrada e Casa da Montanha.

Ramal de acesso à Casa da Montanha

Ilha de S. Jorge e Canal, ao fundo. Sobre S. Jorge vislumbra-se, ao longe, a Ilha Graciosa (com distancias encurtadas pelo zoom da máquina fotográfica)

Casa da Montanha - e escadaria de acesso ao inicio do atalho/trilho estabelecido.





Antes do início da subida o "Staff" da Casa da Montanha anota os dados pessoais dos "Montanhistas", faz as advertências adequadas e exibem um pequeno vídeo informativo. Confesso que não esperava instalações e serviço de tão bom nível e, assim, os 10€/pessoa cobrados pelo menos tem algum retorno.
 

Como já prevíamos, o inicio da subida faz-se por entre uma vegetação tipicamente insular e Atlântica (bosque arbustivo da Macaronésia), com vegetação de urzes, azevinho, cedro do mato e outras, com altura máxima a permitir boa visibilidade e perspectiva do caminho. Embora o trilho, nesta zona, esteja muito danificado pela água das chuvas, o declive ainda não é acentuado e encoraja os mais apreensivos a continuar a subida depois da primeira centena de metros.

Nesta zona (-+ 1500m) são frequentes as neblinas ou nevoeiros, geradores de alguma incerteza quanto ao tempo que se vai encontrar acima. No nosso caso nem tivemos tempo para pensar muito; alguém vindo de cima dissipou as duvidas (200 m acima já não existem nuvens - ponham protector solar e verifiquem a água).



Passados aproximadamente os 1800 metros de altitude, a vegetação muda e, com ela, a paisagem. Devido às condições mais adversas de clima, passa-se a encontrar vegetação rasteira e os "bordões" de lava originais claramente expostos (pouca ou nenhuma cobertura vegetal).

Nesta zona a tonalidade do azul do céu (e a secura do ar) altera-se de forma notória e começamos a contar marcos e a antever (erradamente, muito erradamente) a crista da cratera (fim do caminho).

A subida está claramente marcada, com diversas pequenas alternativas, balizada por 46 marcos de madeira, quase todos visíveis do seguinte ou anterior. Não sentimos especial dificuldade em cumprir com as 4 horas de subida previstas mas, confesso,   no último quarto, já questionávamos se teria valido a pena ter trazido tanta carga (a mochila mais pesada levava seis garrafas de água (de 1.5 Lt cada) e pesava mais de 20 Kg).









Ao fim da tarde e por volta dos 1600/1700 m, a luz  e as cores começaram a oferecer um espectáculo impressionante. Oceano nebuloso mais abaixo, quase ao alcance da mão; um ambiente de cores e formas "fortíssimas" ... a incerteza do caminho nunca antes por nós percorrido ... a certeza de que não teríamos muito mais companhia àquela hora ... e a imensidão da massa do vulcão ... e o Atlântico a perder de vista.
Para visualizar as restantes fotos (caso não apareçam de forma natural) use o link abaixo:
Subida ao Vulcão da Ilha do Pico - 2351m - Verão 2012  (Hiperligações para esta Mensagem)

... e, já agora, as outras perspectivas da mesma viagem:





Deixar uma marca no caminho é sempre uma tentação ..: a de eternizar algo que muito se valoriza ... a aventura da "escalada!.

E o Faial ali ao lado ...!

Ao fim de muito esforço, muita paragem, muita fotografia, entramos "abruptamente" na cratera. Para quem nunca lá tinha estado antes é uma visão inesperada. Uma paisagem inóspita, quase lunar, a lembrar imagens ficcionadas da origem da terra, com bordos altíssimos na concavidade da cratera e, naturalmente, com o "piquinho" à vista.   





Ainda antes do final do dia mais alguns "Escaladores" chegaram, cumprindo o ritual prévio à entrada na cratera - o de "arregalar os olhos" de "espanto" e perpetuar o momento em algumas fotos.




A entrada na cratera foi acompanhada de um misto de extremo cansaço, deslumbramento e incredulidade sobre a possibilidade de escalar o piquinho. O Sol estava a pôr-se, com contrastes quase violentos; não se vislumbrava vereda ou caminho para a escalada final ao topo (Piquinho).

No meio dessa ansiedade para descobrir uma solução, eis que se notam duas minúsculas figuras a subir, por entre penhascos e escórias, até ao topo. Pensamos dois de nós: se eles conseguem subir (e descer ainda hoje), nós também havemos de conseguir. Minutos depois já estávamos a meio caminho e a "estranhar" a exalação dos vapores quentes das entranhas do vulcão. Não havia atalho nem vereda mas sim áreas menos más; com menos pedra rolada.

 
Chegados ao topo, ainda com o sol tangente, foi uma visão de "Outro Mundo"; um misto de espanto ao ver as 5 ilhas lá em baixo (Pico, Faial, S, Jorge, Graciosa e Terceira) e receio dos perigos do regresso. Lá em baixo, muito lá em baixo, notavam-se as tendas de campismo montadas, minúsculas ... para aonde ainda tínhamos de descer antes de escurecer demasiadamente.








Sol já muito baixo, transformando a cratera num espaço quase a preto e branco ....

... uns rebordos da cratera rochosos, ásperos, quase agressivos ...


E como vamos conseguir descer isto (do "piquinho" para a cratera), quase às escuras, pelo meio destes veios de basalto e acumulações de cascalho rolante, sem provocar e ser levados numa avalanche de pedras?



Às 4.30 da manhã o pessoal das duas tendas ao nosso lado já estava em movimento ... a sair e começar a subir o Piquinho. Achávamos muito cedo. Dormir ali os cinco, amontoados numa tenda de quatro, tinha sido uma experiência pouco repousante. Enquanto uns dormiram profundamente (o mais novo), outros passaram o tempo a virar-se na procura de melhor posição, a admirar o luar limpo daquela noite, a questionar-se acerca da secura e frieza do ar dentro da tenda ou ainda a entreter-se a comer e beber o que encontravam nas mochilas.
Por volta das 5.00 da manhã saímos das tendas e rumamos à subida final, apenas com o resto da luz da Lua Cheia
. Tínhamos ideia de onde havíamos descido durante o anoitecer anterior mas perdemos-lhe o rasto a meio da subida. Nada mais havia a fazer do que evitar zonas de cascalho solto e tentar encontrar rocha sólida por onde trepássemos. Sem saber como nem por onde, ao fim duma dúzia de minutos estávamos no topo, que já estava relativamente ocupado. Uns ainda ensonados, outros enregelados e outros impressionados; cada um procurando espaço para assistir ao espectáculo que se avizinhava: o nascer do Sol sobre S. Jorge e por detrás da Graciosa..




A ponta nascente da Ilha do Pico estava relativamente limpa de nuvens e a noção de arquipélago era aqui algo que em nenhuma outra parte dos Açores se sente de forma tão clara.



Tenho pena de não poder identificar melhor o Guia com que nos cruzamos (aqui de camisola verde "fluorescente" ... alegadamente oriundo de S. Jorge). Chegou com um grupo aproximadamente às 7/8 horas da tarde e com outro às 5 horas da manhã.
Para além de bom comunicador, conhecedor dos detalhes da geologia, biologia e história da Montanha, era fluente em Inglês e tinha pernas de montanhista. Uma criatura comum demora 4 horas a descer a Montanha enquanto ele demora menos de hora e meia (por atalho mais ou menos recto). Um comum demora 10-20 minutos a descer o Piquinho, enquanto ele demora menos de 5 minutos.
De início achei caro o "cachet" de montanhista/guia (a quem não recorremos) mas, no fim, reconheci quanto dura, e sazonal, é aquela actividade, para a qual não basta ter pernas.

Ponta dos Rosais, em S. Jorge, ao fundo (esquerda), Veles em frente ... e um mar de "azeite" (Canal) pelo meio. S. Roque do Pico mesmo em baixo.



Num ambiente de espanto ou admiração, havia pouco espaço para comunicação entre desconhecidos. Mesmo assim, a presença de um dos Guias foi suficiente para dar algum significado adicional à subida, versado que era ele em aspectos geológicos e históricos acerca da formação do vulcão.



Hallo Mutter, ist der Blick von hier ein Schauspiel ... .... !

E a habitual gigantesca sombra matinal do vulcão, projectada para SW sobre o manto de nuvens ou do mar. E a Lua Cheia ao fundo, ainda sobre o horizonte.


Bordo NW da cratera, com ilha do Faial ao fundo.

Topo de S. Jorge ao fundo, quase se vislumbrando a ilha Terceira por entre a bruma da madrugada.

Pico - lado Nascente.


Apesar das fumarolas à volta do cume do Piquinho, a madrugada é fria!.


 Momentos inesquecíveis ....



 Sol já com alguma altura, fotos tiradas, conversa posta em dia, e eis o momento de procurar vereda para a descida do Piquinho até à cratera e, depois, montanha abaixo.








Subir isto, às 5 da manhã, no escuro, sem caminho marcado e com toda esta pedra solta, não é "Pêra Doce"!


Ainda há tempo de fazer um café, reforçar o pequeno almoço e, depois, desmontar tenda, arrumar mochilas, tirar ultimas fotos e andar .... E o reforço do pequeno almoço alguns foi valente: uma feijoada quente com leite achocolatado ...

... uma ultima espreitadela e ...

... e toca a procurar a descida ...

... descer, parece que vai ser "canja" ...

... não sem antes tentar deixar uma marca, uma memória, uma esperança de voltar ...



Tínhamos a ideia de que a subida à montanha era um dos atractivos da ilha. O que  não imaginávamos era o nível de procura que tal atractivo tem, especialmente nos estrangeiros visitantes. Na descida encontramos inúmeros grupos a subir (centenas de pessoas talvez), com ou sem guia, de todas as idades (dos 7 aos 77 anos), alguns a fazê-lo com grande facilidade, enquanto que outros iam pondo "os bofes pela boca fora".



Os Guias sempre fazem umas incursões acessórias a locais onde a perspectiva é interessante ou onde algum cliente sugira ...

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A Justiça criminosa - por Clara Ferreira Alves

 «Pluma Caprichosa» - «Expresso» de 20 de Outubro de 2007 - c.a.a.

"Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso.
Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.
Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia que se sabe que nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.
Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve.
Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços do enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal e que este é um país onde as coisas importantes são "abafadas", como se vivêssemos ainda em ditadura.
E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogues, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.
Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém que acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muito alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos?
Vale e Azevedo pagou por todos.
Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção.
Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo "normal" e encolhem os ombros.
Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida?
Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático?
Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico?
Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana?
Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?
Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.
No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém? As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não substancia.
E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu?
E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou?
E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente"importante" estava envolvida, o que aconteceu?
Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu.
E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente "importante", jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?
E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára?
O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.
E aquele médico do Hospital de Santa Maria suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina?
E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.
Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento. Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade.
Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os "senhores importantes" que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra.
Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade. Este é o maior fracasso da democracia portuguesa e contra isto o PS e o PSD que fizeram? Assinaram um iníquo pacto de justiça."

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Fajã do Lombo Gordo e Fajã do Araújo - S. Miguel - Açores


Saudades da Terra - Gaspar Frutuoso (1522-1591)
Livro IV CAPÍTULO XXXVIII (S. Miguel – Açores)
Saudades da Terra
Gaspar Frutuoso (1522-1591)
Livro IV CAPÍTULO XXXVIII(S. Miguel – Açores - Sec XVI)
... …………………………… “Começa a compridão desta ilha da ponta do porto da vila do Nordeste, assim chamada por ter o rosto a este vento, e de modo que o seu contrairo vento, desta ponta, e o nordeste, junto do morro alto que, de vinte e trinta légua...s ao mar, primeiro se vê dos navegantes que vêm do oriente, situada no Lombo Gordo, em uma lomba que se chama de Salvador Afonso, em um lugar não mui chão, mas de boas casas e devotas igrejas, lugar alegre, de frescos pomares, com claras ribeiras, ……….………………………
O primeiro capitão da ordenança de guerra foi Gaspar Manuel, que ainda é vivo e morador agora em Vila-Franca do Campo, feito pelo Capitão Manuel da Câmara; em cujo lugar sucedeu Jorge Fernandes que, por ser velho, foi depois feito por eleição terceiro capitão Baltasar Manuel. O primeiro alferes foi João Lourenço, o Moço por alcunha, por haver outro João Lourenço, mais velho, no tempo de Gaspar Manuel em que não havia sargento. E vindo a ser capitão Baltasar Manuel, saiu também na eleição, por sargento primeiro, João Afonso Correia, e por alferes segundo Pero Carvalho, que é filho do alferes passado João Lourenço; em cuja capitania, na dita vila e seu termo, pode haver cento e setenta homens de armas e já teve mais gente, porque antes do segundo terremoto que aconteceu nesta ilha, tinha ela e seu termo duzentos e vinte vizinhos.………………………………………

……………., principalmente agora, depois que pelo segundo terremoto se cobriram os pastos de pedra pomes, não comem (o gado) senão rama. Com o incêndio do segundo terremoto que disse, se cobriu toda aquela comarca de cinza e pedra pomes, em muita altura, que como o vento, quando abriu a terra, era ponente, foi causa desta pedra pomes, que do centro saiu e se alevantou no ar, com a força do fogo, correr mais para aquela banda e fazer ali mais dano caindo sobre ela; mas os moradores e senhores das fazendas tiraram logo muitas ribeiras de água, com as quais, não com pequeno trabalho, as limparam, de tal maneira, que agora se recolhe, cada um ano nesta vila e seus termos, até seiscentos moios de pão, e cada vez ao diante se irão recolhendo mais. Era terra muito delgada, mas com a invenção do tremoço com que a outonam, engrossou já tanto que é tida em muita conta; não tem outras mais granjearias que as ditas, para sustentar seus moradores, e, se se faz algum pastel, é pouco. Serve-se de toda a ilha por batéis e barcos e carregam de trigo alguns navios no verão e outros tempos do ano. Tem da banda do sul porto limpo para ancorar, mas muito trabalhosa serventia para batéis e carros, por uma ladeira de um comprido lombo íngreme e defensável de imigos e cossairos, que só por ele podem subir, por ser aquela parte desta ilha, por todalas bandas do mar, de altas e talhadas rochas bem cercada; e da parte da terra, de ásperas e umbrosas serras e sarrados matos, donde as sobreditas águas continuamente estão correndo; mas, se por causa das serras e porto, a vila está segura, não está o mar daquela costa, por andarem muitas vezes cossairos espreitando e esperando os navios que vão para fora e doutras partes vêm para esta ilha, por todos irem demandar o alto morro que está perto dela, que é, como disse, a primeira coisa que se vê, quando vêm do oriente. ……………………………….
Da Ponta da Marquesa corre a costa tanto como meia légua ao sudoeste, passando pela lomba de Rui Garcia e pela lomba do Meio, donde corre uma ribeira, do Trosquiado (João Gonsçalves Botellho?), um homem assim chamado, porque se trosquiava sempre e não deixava crescer o cabelo, que chamam Lomba do Meio, por estar entre a de Rui Garcia e a lomba e ribeira dos Cambos; entre a ponta da Marquesa e a dos Cambos faz ali a terra uma grande baía de meia légua, que tem uma praia de areia, a que chamam as Prainhas, onde se acolhem os navios das tormentas e ventos su-sudoeste, sudoeste, oeste e noroeste; e para todos estes ventos e quase todos os outros, tirando o norte e sul, é este muito bom porto e limpo e seguro abrigo; onde também está uma fajã de terra de pão, de António Afonso, senhor do Lombo Largo, sogro do licenciado António Camelo; e logo adiante uma ponta, que se chama o Lombo Gordo, onde é o topo da ilha, como um cunhal dela, que se chama Topo ou Morro do Nordeste, que estará de Água Retorta um quarto de légua. Na rocha da ponta do Lombo Gordo nasceu uma árvore tão grande como uma romeira, que nunca se pôde saber que árvore era, nem de que espécie, a qual tinha as folhas como de pau branco e de cor de ouro, e dava umas maçãs de pau, como bugalhos, que regoavam; por cuja causa chamavam dantes àquela ponta ali a Árvore Formosa, que durou naquela parte muitos anos e já é consumida. Logo adiante, corre uma ribeira, que se chama dos Cambos, chamada assim porque não se podendo descer um homem que ia por ali perdido, fez uns cambos de pau, com que desceu ao calhau pela rocha abaixo. Mais adiante está uma ponta ao mar, pequena, onde está uma fajã de Francisco Fernandes, sogro que foi de Matias Lopes de Araújo, da vila de Água do Pau; da qual fajã até à ponta de João da Costa será uma légua, ao pé da qual (que é muito alta) está outra fajã de moio e meio de terra de pão, do mesmo João da Costa, filho de João Afonso.

Dela para trás vai virando a terra para o nordeste, tudo em rocha mui alta, onde não há mais que duas descidas abaixo ao calhau, onde se chama a Água Retorta, e duas ribeiras, uma chamada do Arco, porque furou a terra para ir para o mar e ficou um arco nela, e outra se chama a ribeira de Água Retorta, porque se vai retorcendo em voltas. Ali na terra, em cima daquelas altas rochas, está um ajuntamento de moradores, até dez casais, da freguesia do Faial, onde entre eles tem sua fazenda João Roiz Cordeiro, cidadão de Vila Franca do Campo. Daí para o sul, que será mais de quarto de légua, corre a costa ao noroeste, fazendo uma enseada ou baía de mais de meia légua, antre a ponta de João da Costa e outra que está logo além do Faial; estando depois da ponta de João da Costa uma altíssima rocha, direita ao prumo e talhada, que dizem ser a mais alta de toda a ilha, que se chama o Bode, por cair algum dela abaixo, donde caem também pedras (por ser mui íngreme), que mataram ali um moço e feriram dois, que por baixo passavam; e, para contar isto melhor, somente ao longo da costa, digo que da vila do Nordeste, correndo rocha alta, ao porto da dita vila, que é desembarcadouro em penedia brava, e uma calheta em que somente cabe um barco, há mais de dois tiros de escopeta, e do dito porto pela costa adiante, até chegar à costa do sul, tem muitos e bons surgidouros.

Do porto há, outro tanto espaço de rocha alta, uma grande e alta ponta, chamada da Marquesa; da Ponta da Marquesa vai fazendo a rocha uma enseada, de compridão de uma légua, até ao Morro, que é uma alta rocha, como cunhal da ilha, testa do Lombo Gordo, dentro da qual enseada, toda cercada de penedia, ao nível do mar, meia légua, quase no meio dela, vai beber no mar uma ribeira, que somente corre no inverno, chamada dos Cambos; além da qual ribeira, contíguo com ela, está um pequeno areal, de areia miúda e preta; e logo vão umas fajãs pequenas, que dão trigo e pastel, até entestar com o Morro já dito.

Este Morro é uma soberba serra que se chama o Lombo Gordo, que vai morrer e acabar em uma rocha muito alta, da banda do levante, chamada dos mareantes o Morro ou Topo, em que bate o mar uma légua da vila do Nordeste; e o mesmo Morro vai pela terra dentro, e crescendo cada vez mais, e alevantando-se até ao Pico da Vara, que é o mais alto monte da ilha, que por outro nome se chama toda aquela serra alta dos Graminhais, ao pé dos quais está a Lomba de São Pedro e a Algarvia, da banda do norte, e o Faial, e a Povoação Velha, da banda do sul.

Do qual Morro para diante, vai voltando a costa, de alta rocha e calhau grosso e miúdo, a lugares ao lível do mar, onde quando o mar se embravece chega ao pé da dita rocha meia légua até ao passo que se diz da Gorda, por passarem por cima de uma ponta de pedra, alando-se por uma corda de uma banda para outra. Junto do qual passo, quase apegados com ele, estão dois penedos altos, de modo de pedra queimada, que chamam os Ilheusinhos, onde há um bom surgidouro, o melhor que há por aquela banda do norte, dali até à Maia.
Dos Ilheusinhos, correndo a rocha alta e calhau ao longo do mar, pela mesma maneira dita atrás. até espaço de meia légua para o sul, está uma boa fajã de Simão da Ponte, com caminho de pé e de bestas, pela rocha arriba, que dá bom pão e pastel; junto da qual fajã, um tiro de besta, dobrando já a costa para a parte do sul, está uma grota chamada a Grota Funda; e apegado com ela, um tiro de pedra, está uma fonte de tão grossa água como a coxa de um homem, que nasce em meia rocha, ao pé de uma fajã pequena; acima da qual fajã e da outra atrás dita está uma povoação de gente, de até dez ou doze casais, que se chama Água Retorta, por respeito da fonte que pela rocha cai em voltas, e são da freguesia do Faial.

D’Água Retorta, que parte com o Lombo Gordo na banda do ponente, se começa o termo de Vila-Franca, porque ali fenece o do Nordeste; e dali para o ponente vai começando a costa do sul, correndo a rocha direita e mui alta, e tão íngreme que em muita parte dela não poderão andar cabras, ao lível com o mar, de calhau miúdo; ao pé da qual rocha, além meia légua, está uma fajã grande de Baltasar Manuel, de até dois moios de terra, muita parte da qual semeia de pão e a mais ocupada de mato, urze, murta e faia; e correndo a mesma rocha para loeste, a modo de enseada pouco curva, por espaço de um tiro de espingarda, está na mesma rocha uma veia de pedra branca da largura de oito côvados, desde o pé da rocha até o meio, que será altura de tiro de um bom berço, que se chama o Risco do Bode, que outros chamam Risco do Manaia, pelo ele ver, vindo do Reino para esta ilha, em tempo de cerração, sem ter vista a ilha, e pela brancura do Risco, julgar ser a ilha; e indo a descobri-la junto da costa, donde depois dizia o mesmo Manaia, vindo do Regno:—levo pela proa o Risco do Faial; e tão bom piloto era nesta travessa, que assim o fazia como dizia.

Ao pé do qual Risco, ou vieiro de pedra, nasce uma fonte pequena, de boa água doce; deste Risco branco caem muitas vezes pedras em tempo de chuva, com que correm muito perigo os que por ali caminham pelo pé daquela rocha; do qual Risco até às Formigas que estão ao su-sueste, há dez léguas, demorando-Ihe o Risco a elas ao nor-noroeste. Deste Risco branco corre a rocha direita ao noroeste, assim altíssima por espaço de um tiro e meio de escopeta até ao Faial, com uma baía que ali faz antre as duas pontas já ditas, no meio da qual está o dito lugar do Faial, situado em uma aberta, antre uma grande ribeira, da banda do oriente do lugar, logo passada a Rocha do Bode, ao pé dela, e uma levada que dela sai da parte do ocidente, com que moe um moinho, de que se servem os moradores do mesmo lugar do Faial, assim chamado por ser antigamente aquele vale coberto de muitas faias e altas, com raras sombras de brandos vimes, e outras espessas de verdes árvores, regadas não somente com a ribeira e levada, mas com muitas deleitosas e claras fontes que das ladeiras daquela montosa terra se vêm meter nelas até se misturarem suas doces águas com as salgadas do mar vizinho, em um bom porto que tem, pelo qual sobe muito pescado pelas correntes da ribeira acima, além da grande quantidade de eirós, que ela em si cria, das quais coisas todas está o lugar tão bastecido, como das muitas faias de que tomou o nome, o qual já é termo de Vila-Franca do Campo, de quem ela elege, a seus tempos, homens que a governam. Tem uma igreja, da invocação de Nossa Senhora da Graça, cuja festa principalmente se celebra a oito dias de Setembro; terá toda a freguesia trinta e sete fogos e almas de confissão cento e catorze, das quais são de sacramento oitenta e oito, e já teve mais; cujo primeiro vigairo foi um Rodrigo Anes Barabam,………..

……………………………………………… Dista do Nordeste três léguas, e alguns moradores deste caminho são desta freguesia; e ainda que o porto é mais que de serventia de batéis, poucas vezes surgem nele navios, por não servir para abrigo, nem ter carregação alguma. Os vizinhos dele, que são nobres e ricos, lavram pão e algum pastel; e tudo é muito bom, mas abasta para pouco mais que para seus moradores; tem madeira, que alguns granjeiam e mandam vender a caixeiros, a Vila-Franca e à cidade.

Está este lugar assentado (como digo) em um campo de oito até dez moios de terra, cercado de montes, quase de meia légua de altura de todas as partes, senão do sul, donde fica o mar, o qual campo parece que em algum tempo foi mar e com enchentes se atupiu de terra. No monte, da parte do oriente, está a roça de Pero de Freitas, onde roçam mato para semearem pastel e trigo; descendo dela para a banda do sul, está uma grota que se chama o Campo dos Alhos, porque havia ali muitos bravos, a qual grota, em tempo de inverno, toma muita água e toda corre para o Faial, com que dá muito trabalho aos moradores dele; e apegado com a grota, da banda do mar, fica o Pico Alto do Bode, que já disse, de criações de gado, e rocha mui alta de pedra vermelha, queimada, como coisa que em outros tempos ardeu; e dela caiem as pedras que disse, no caminho que vai do Nordeste e Água Retorta, ao longo do mar, e da fajã de João da Costa, que será de moio e meio de terra, e dá trigo, pastel e cevada, e criam-se nela muitos coelhos”. …………………………..