quinta-feira, 12 de novembro de 2015

A malapata do centro

Independente do "Tag" partidário que Francisco Louçã carregue, a verdade é que, concordando-se com ele ou não, continuam a brilhar no panorama da reflexão política (ou económica) nacional. E aqui segue eco de mais uma das suas intervenções. 

Tudo Menos Economia
12 de Novembro de 2015
Francisco Louçã   

Um dos aspectos curiosos da crise que vivemos, desde que as eleições conduziram ao fim do governo de Passos-Portas, é a radicalização da política.

Todos notamos esse processo. Não é só nos ódios que escorrem nas caixas de comentários deste blog ou de todos os outros, sobretudo quando o anonimato protege a bravura do insulto, no acinte de tantos dos comentadores, no frenesim de deputados (“repugnante”, grita Luís Montenegro), nos títulos bombásticos dos jornais. Deixemos isso à sua sorte.

Mas convido os leitores e leitoras a olharem para outro aspecto, porventura mais iluminante: a forma como resvalam para a direita algumas personalidades que cultivavam um lugar ao centro e que disso obtinham relevo social, cultural, comunicacional, exemplos como eram de pensamentos arejados e intrigantes.

Vejamos três casos de pessoas que leio com particular interesse e curiosidade.

Luís Aguiar-Conraria, albergado no Observador, confessa ter votado PS e estar retumbantemente arrependido, assinalando com algum humor como esta revelação o tornou popular entre os cronistas do PSD e CDS (diz ele que tem a companhia de Clara Ferreira Alves). Condecorado pelos próceres da direita como cidadão exemplar, Aguiar-Conraria repete os argumentos mais sofridos contra a mudança de política: o salário mínimo não deve aumentar, mais procura é perigoso, é preciso obedecer ao ditames europeus. Assim, alinha-se sofredoramente com quem entende ser mais coerente com o projecto de “austeridade inteligente”, indignado porque, no acordo PS-BE-PCP, os “orçamentos de Estado serão usados para ‘devolver salários, pensões e direitos’, mas nunca declaram que procurarão fazê-lo dentro do quadro das nossas obrigações europeias.” Supõe-se que as “nossas obrigações” são ortogonais em relação à “devolução de salários, pensões e direitos”.

Clara Ferreira Alves, com mais estrondo, descobre-se “anticomunista”, signifique isso o que significar. Portugal é um problema de atraso cultural perpétuo, conclui ela: “Basta ir a Londres e à Tate Modern, e visitar a exposição ‘The World Goes Pop’, para ver como Portugal não consta desta revolução”, e nesse limbo do atraso vingou o PCP durante a ditadura. Depois, descobre Ferreira Alves, nada de confusões: “O contributo de forças como o PCP e o Bloco para a democracia portuguesa é importante, apesar destes desníveis. Mas só é importante por ter sido enquadrado e travado pelo socialismo democrático dos socialistas e a social-democracia dos sociais-democratas.” O centro foi tudo mas agora encaixou-se e está ameaçado pela esquerda, enfim destravada.

Miguel Sousa Tavares, sempre mais directo, acha simplesmente que “dificilmente esta história acabará bem” (o que, consoante o tempo que se lhe dê, será garantidamente um dia verdade e outro dia deixará de o ser), porque “tudo parece girar à roda de quanta mais despesa do Estado será necessária para acolher as benfeitorias que cada um (dos partidos) propõe”. E há temas que o tiram do sério, como o fim dos exames da quarta classe que, como toda a gente sabe, foi a grande inovação do quartel-general cratista da 5 de Outubro para ensinar pedagogia a uma Europa relapsa. Tudo mal nesse acordo do PS com a esquerda.

O que há de comum entre estas três posições, porventura representativas de outras, embora muito especiais como o são os seus autores, é que apoiavam o centro e sem dúvida desejavam a sua vitória. Mas a realidade eleitoral complicou tudo e, perante a pressão desta crise política, um desloca-se para a direita, outra redescobre-se visceralmente “anticomunista” e sente a necessidade de o proclamar e outro bombardeia o novo governo como se estivéssemos no dia do juízo final.

Ora, este é um sintoma do que é algum do centro neste momento. Perturbado com a simples ideia de devolver salários e pensões, depois de nos anos anteriores se ter compungido com os sofrimentos dos pobres trabalhadores e dos velhos, este centro não tolera a prova da escolha. Amedrontado, parece ficar à espera de que não aconteça nada. Melhor com os senhores do costume, habituados que estamos ao fato de Príncipe de Gales do vice-primeiro-ministro e ao canto coral do primeiro-ministro, do que na aventura assustadora do aumento do salário mínimo para 530 euros, isso nunca.

Outros, que há um par de meses eram entusiastas da negociação da dívida, a começar por alguns do PS, preferem hoje que fique tudo esquecido, porque o clima não está para essas coisas, a Grécia assustou as boas almas, vão andando que eu vou lá ter.

Só que, e aí é que está o busílis, falta ao centro a alternativa onde lhe sobra indignação. Há um vislumbre de resposta sobre como gerir as contas públicas? Nada, só o temor reverencial à “Europa”. Há uma palavra sobre como criar emprego ou onde por as fichas do investimento? Nada, os mercados dirão. Há um gesto acerca deste indignante desbaratar de bens públicos ou da teia de interesses entre a banca e a decisão política? Não se espere tanto. Nem se deveria esperar, o centro é o lugar onde não se decide nada, obedece-se à “Europa”.

Porque não tem nada a propor e prefere nada fazer, o centro está a desfalecer. Por isso não me surpreende que alguns dos seus ideólogos ou praticantes se sintam agora forçados a sair para o lado. Só posso elogiar a sua sinceridade e a sua presciência. O que nos estão a dizer é que a esquerda pode e deve enfrentar a direita e que ninguém mais o fará, se não ela.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Vasco Pulido Valente - e Francisco Louçã.

"Tudo Menos Economia" 
Em: nao-ha-nada-a-fazer-tenha-paciencia
Por Francisco Louçã.


Portugal não tem cura, é uma piolheira, a política é um manicómio e a elite, de alto a baixo, é uma bosta, já se sabe. Mas há um homem para nos relembrar todas as semanas essa evidência. Assinalo a grandeza deste preclaro salvador e desbarreto-me perante ele. Veja o leitor ou a leitora o inventário dessa luminosidade.

Ele, o Dr. Vasco Pulido Valente, começa por cima quando pergunta se alguém, que não ele, nos pode salvar. Ora, ele sabe que, em Belém, “o dr. Cavaco exibe a cada passo, até nos mais pequenos pormenores, a sua incapacidade para o cargo em que infelizmente o puseram. (…) O sr. Presidente da República devia daqui em diante observar um silêncio penitente e total, com o fim meritório de não assanhar a crise que ele consentiu e em parte criou.”

Assim, “hirto e rígido, o dr. Cavaco, apesar de 20 anos de poder, nunca verdadeiramente percebeu o que era a política, como não percebe o enorme problema que a sua obstinação criou ao país (e estará) a partir de Janeiro oficialmente morto e a partir de Fevereiro instalado no admirável conforto do Algarve e da reforma.”

Enterrado o presidente, que não nos salva, restam talvez o primeiro-ministro, o governo ou os partidos.

Mas é evidente que “o desdém hoje comum pelo primeiro-ministro, que nem chega a ódio, vem do facto prosaico de que as pessoas não o levam a sério. A diatribe pueril e errada sobre os jornalistas e os comentadores não excitou ninguém. É o que se espera da criatura.”

Enterrado o presidente, sai o primeiro-ministro, também não nos salva. Sobreviverão o governo e os partidos?

Nunca, o governo e os partidos são insondáveis na sua baça estupidez. “Informado ao pormenor sobre os malefícios de Pedro Passos Coelho, de Paulo Portas, da sra. ministra das Finanças e de mais meia dúzia de ‘notabilidades’ sem consequência, o cidadão comum não percebe os propósitos do Governo ou da oposição. As futilidades que os chefes trocam na rua, na televisão e no Parlamento não lhe servem de nada.”

Por isso, o governo só procura fugir da sua obra e esconder-se dos indígenas. “Resta que o futuro dos génios que nos pastoreiam parece duvidoso. O primeiro-ministro arranjará com certeza um lugar condigno. Pires de Lima e Paulo Macedo também. Alguns voltarão a um escritório de advogados, que é uma boa maneira de continuar na política à socapa. A maioria ficará depenada e só. E mesmo que Portas se retire para Caxias-Colombey, não pode contar que o ponham em Belém daqui a vinte anos.”

Enterrado o presidente, defenestrado o primeiro-ministro, disperso o governo, esquecido o vice-primeiro-ministro, ignorados os partidos, o que sobra em Portugal, quem nos salva?

Ninguém nos salva? Alto. O Dr. Vasco Pulido Valente, num raro mas assinalável momento de humildade, descobriu outro que, como ele, ainda nos pode salvar. Apresente-se o salvador:

“Mas nada chega à indiferença olímpica de Miguel Beleza. Pensa Beleza que ‘saia’ a Grécia ou ‘saia’ Portugal, isso teria ‘pouca influência’ na zona euro. E acredita, evidentemente, que a bancarrota da Grécia não iria provocar grandes sarilhos cá por casa. O dr. Miguel Beleza é um sedativo na berrata estabelecida. O que me permitirão descrever como a ‘economia institucional’ anda muito nervosa. A ‘economia de esquerda’ (?) fala em ‘carnificina social’ e em ‘retrocesso’ da civilização. O português comum esvoaça no meio da barafunda. Só o dr. Beleza pachorrentamente dá o seu passeio e consegue aguentar a trepidação alheia. De quem Portugal precisa é do dr. Beleza e não do bando de excitados que se esganiça por este pobre país, sem saber o que pensa e o que quer. Deixem de pensar em desgraças. O dr. Beleza sabe mais do que nós. Não tirou um curso na Lusófona; tirou um doutoramento no M.I.T..”

Só que o homem é pasmado, indiferente, olimpicamente indiferente, pachorrento até – mas é doutorado no MIT, o que eleva a indiferença olímpica às latitudes de Boston. Sabe tudo e não faz nada, “consegue aguentar a trepidação alheia” com o seu silêncio distante, mesmo que sinta o português, coitado, a “esvoaçar no meio da barafunda”. Por isso, a verdade é esta: nada, nem este salvador sedativo, “nenhum homem – ou mulher – inteligente e cordato se meteria voluntariamente nesta sopa turva”. Um sarilho que os indígenas nem conseguem perceber.

Pululam conversas de café e candidatos presidenciais avulsos pois, “fora isto, que não é pouco, aparecem quase dia a dia ajuntamentos com um papel na mão, que pretendem promover causas sem sentido, a roçar a pura idiotia, e se manifestam por aí com o vocabulário e a ênfase de uma religião apocalíptica. Claro que a desagradável tendência para a exibição (e a exposição) explica uma parte substancial deste amor romântico pelo espectáculo. A personagem obscura da sociedade portuguesa descobriu de repente que a política era um bom caminho para a ‘fama’; e a crise, naturalmente, produziu a sua própria colheita de ‘famosos’.”

Nada. Nem presidente, nem primeiro-ministro, nem vice, nem ministros, nem os seus partidos, menos ainda os seus candidatos, ninguém nos salva, nem o pacato doutorado no MIT.

A bem dizer, só sobra o Vasco, o próprio Vasco, tão só que dá pena, ele que foi governante com o presidente “hirto e rígido”, deputado com o partido “que ninguém leva a sério” e apoiante de candidatos presidenciais tão pululantes nesse “amor romântico pelo espectáculo”.

Bem sabe portanto do que fala, o que é o melhor elogio que se pode fazer a um áugure. É por isso que tanto estimo a prosa do Vasco, homem previsível e até fácil: sabemos sempre o que ele vai escrever, limita-se a confirmar a sua certeza sobre esta choldra piolhosa que se tornou uma barafunda e uma berrata.

Alguém tem que segurar o leme deste triste país, senão para o dirigir, pelo menos para o lamuriar bem lamuriado.