Açorianidade - Segundo Vitorino Nemésio e segundo Fernando Aires.
Açorianidade [II]
Vitorino Nemésio
Ponta Delgada. Revista Insula - Julho e Agosto de 1932
“O
descobrimento português dos Açores em 1432 vale como prefácio das
grandes devassas marítimas que culminaram no fim do século com a rota da
Índia e o achado do Brasil. Portugal, fixado como território da
Península, limitara a noção de “aquém e além” ao peristilo
mediterrâneo: ia alargar pelo mar tenebroso os seus limites de água e
criar em orlas remotas núcleos de alargamento.
Em si mesmos, os
Açores valiam pouco. Talvez significassem a princípio uma possibilidade
de rumo português à alta América, tentado pelos Corte Reais, João
Fernandes, navegadores meio obscuros como aquele Pero de Barcelos cuja
inscrição tumular gastavam os pés dos pescadores na Igreja da
Misericórdia da Vila da Praia da Vitória. A lenda, que Chateaubriand se
apressou a recolher nos Natchez, descobria um penedo antropomórfico nas
solidões do Corvo que parecia apontar nesse sentido. Mas a breve trecho
as ilhas remergulharam no silêncio, salvado apenas pela onda das
enchentes nas horas de drama telúrico.
Por isso o destino dos
Açores me parece ser historicamente um limbo de obscuridade. A sua
história interna, própria, sem intromissões de fora parte, desenvolve-se
num quadro de pequenas vicissitudes que só alguns dramas, encenados lá,
vão quebrando. As ilhas fizeram-se viveiro de experiências políticas
exteriores. Para lá foi tentar resistir D. António, e a Restauração
montou ali tardiamente a sua máquina.
Mas a grande página de
história insular é o Liberalismo. O português que se sente novamente
europeu lá vai preparar, depois do exílio, a invasão da europeidade — e o
Robinson nacional encontra na Terceira a sua ilha. É — di-lo Herculano —
“o rochedo da salvação”.
Com efeito, a grande aventura não podia
encontrar melhor teatro do que essas ilhas perdidas e meio dormentes
no Atlântico, que Palmela, obrigado a amplificar tudo por exaltação
romanesca e por táctica, chamava os “Estados da Rainha”.
Afora
estes dramas, cuja emotividade se destinaria a embeber de aventura o
ilhéu preso, permanecendo-lhe até certo ponto como que alheia e
excessiva, a vida açoriana insistia numa mediocridade deliciosa, feita
de mar e de lava, e do que o mar e a lava precipitam: sargaços, peixes,
piratas, um pouco de enxofre e sismos. Neste círculo se apertava a vida
do açoriano, até que a sedução do mar envolvente se tornava mais forte
do que ele. Vinha a emigração.
Para um país que fosse senhor
dos mares e não simplesmente o seu primeiro ocupante histórico (uma
Inglaterra, uma América do Norte ou mesmo uma Itália inquieta e bastante
provida de estaleiros), os Açores seriam uma destas bases de refresco
cheias de idas e vindas, povoadas de um alto frenesim que, a par das
nuvens, acrescentaria ao crocitar dos cagarros o roncar dos aviões.
Assim, com uma velha canhoneira em estação num dos portos, fazendo no
Verão a escala turística das suas cidadezinhas, Portugal tem mantido
naquelas solidões uma soberania obscura, indisputada e modesta.
São
terras de paz e de esquecimento. Levaram quatrocentos anos para darem à
Metrópole o espírito português mais inquieto — Antero de Quental — e
mantiveram-se no seu magnífico apartamento, como afloramentos destinados
apenas às garras das aves marinhas.
Eram o património dos altos
infantes de Avis. O ducado de Viseu e o senhorio da Covilhã
aumentavam-se daquelas possessões sem rendimento nem futuro, que davam
às vezes aguada às naus da Índia depois que Vasco da Gama foi deixar na
Terceira o cadáver do irmão. Melhor do que o túmulo de Paulo, os Açores
deviam ter sido a campa solene onde ardessem constantes os lumaréus do
mar. Têm, não sei porquê, a configuração de túmulos, e uma imponência a
que as nuvens baixas dão uma luz de cripta. Temo que não são terras
vivas. Falta-lhes a tal animação que só lhes viria de uma estação naval e
aérea — do sonho, enfim, que não está nas nossas cansadas mãos fazer
realidade.
E, todavia, lá vivem almas portuguesas das rijas e lá se passa uma comédia humana que tem, pelo menos, a grandeza da solidão.
Soa
meio milénio sobre o descobrimento das ilhas e o tempo festeja-se a si
mesmo com alguns dramáticos tremores. A Povoação, onde aportaram os
primeiros colonizadores idos da ilha vizinha, rui para se lembrar. Não
parece um capricho do destino em reservar aquelas terras para palcos de
vida obscura e apesar de tudo inquieta?”
Açorianidade, segundo Fernando Aires:
“Esta terra açoriana fragmentada e atirada à distância, pedaços de lava dispersos pelas crateras da desaparecida Atlântida, agiu sobre a alma insular sempre em dois sentidos opostos: - um na horizontal, de migração para longes terras, outro na vertical, na direção da divindade. Expansão e recolhimento interior - dois movimentos antagónicos com a mesma raiz de ínsula. Dualidade conflituosa que oscila entre o intimismo e a abertura ao mundo, entre a tensão e a distensão, entre o silêncio e a fala com os estranhos [...]. Por pouco não somos místicos... Por pouco também não somos conquistadores de continentes .... Ficámos sempre a meio caminho entre o ter e o ser, entre a realidade e o sonho, entre a realização e a frustração - simbolicamente marcados no mapa a meio Atlântico, entre dois mundos, sem pertencermos decididamente a nenhum...”
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