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terça-feira, 4 de setembro de 2018
quinta-feira, 28 de junho de 2018
sexta-feira, 8 de junho de 2018
A Base das Lajes
e o peso da presença das Forças Americanas
na vida económica da ilha Terceira.
As Forças Armadas Portuguesas
e as contrapartidas da Base.
Uma opinião esclarecida e lúcida dum jornalista Terceirense:
Armando Mendes.
RELATÓRIO DA ASSEMBLEIA MUNICIPAL DA PRAIA DA VITÓRIA
SOBRE A IMPORTÂNCIA DA PRESENÇA NORTE-AMERICANA NA BASE DAS LAJES
2012
Audição do Jornalista e
especialista sobre assuntos relacionados com a Base das Lajes, Armando Mendes:
A minha especialização relativamente à geopolítica e à geoestratégia, no caso
concreto da Base das Lajes, decorre sobretudo do estudo do acordo de 1995 e dos
tempos posteriores até à atualidade. Em termos de especialização, eu não a fiz
relativamente ao passado de uma forma muito concreta. O estudo que eu tenho
sobre as Lajes, que tenho aprofundado e que estou agora a preparar para
doutoramento, é a partir da queda do Muro de Berlim, é a partir daí que eu
posso-vos falar. Se quiserem falar do passado tenho algum conhecimento, mas não
tenho o conhecimento que possuo sobre esta história das Lajes, da geopolítica e
geoestratégia dos Açores pós queda do Muro de Berlim. Comecemos pelo Acordo das
Lajes. O Acordo das Lajes tem que, o chamado Acordo das Lajes para os
americanos se chama Acordo das Lajes para Portugal chama-se Acordo de
Cooperação e Defesa entre a República Portuguesa e os Estados Unidos da
América. Este acordo tem de ser compreendido à luz de como funcionam as
relações internacionais e também um pouco à luz do direito internacional que
rege, ou que poderá eventualmente reger, as relações entre estados. Esse direito
praticamente não existe para este tipo de relações. O direito criado é o direito
negociado entre os estados.
Ora
nas relações internacionais os estados tendem a gerir-se por, ao nível dos seus
interesses, da prossecução dos seus interesses, por um ambiente realista, o
chamado realismo político. O que é que isto significa?! Significa que os
negociadores de qualquer estado têm apenas responsabilidades éticas e até
morais perante o povo desse seu estado e não perante mais nada nem perante
ninguém. O que significa que um estado vai para a mesa das negociações com o
objetivo de conseguir os seus interesses. Esse é o grande objetivo, é perante
isso que ele tem de responder eticamente, moralmente e obviamente legalmente,
em muitos casos, perante os seus próprios estados, eles têm de responder
perante os seus próprios estados. Neste ambiente de realismo político gera-se
no concerto das nações algo parecido, e por falta de outro termo vou utilizar
este, algo parecido com uma relação feudal. Nessa relação feudal os estados
poderosos mandam e os outros estados vão-se alinhando num regime de
suserano/vassalo. Neste caso, Portugal como obviamente não se escapará, é
entendido como um estado vassalo nas relações internacionais. Foi numa
determinada maneira até à queda do muro de Berlim e continua a ser neste
momento na relação com os Estados Unidos. Este ambiente vai-nos permitir
perceber o acordo de 1995. O acordo de 1995 é um mau acordo, desde logo porque
aquilo que se conhece do valor geopolítico e geoestratégico dos Açores à altura
não foi contemplado, por aparente desconhecimento da parte portuguesa. O acordo
é negociado entre 91 e 1995 e culmina num texto que não é reconhecido pelo
senado norte-americano, mas é reconhecido pela república portuguesa. Ou seja, a
relação de vassalagem que há pouco vos falava está aqui bem explícita. Enquanto
o vassalo jura na sua ordem política interna que vai cumprir o suserano não o
faz. Vai cumprir, vai fazer os melhores esforços para cumprir, mas efetivamente
não está preso no seu direito interno. Isto obviamente só pode gerar problemas.
E tem gerado problemas designadamente ao nível da aplicação do acordo. Este
acordo tem um outro problema de raiz que tem a ver com a tradução.
Aparentemente o acordo terá sido negociado por iniciativa norte americana,
portanto com textos em inglês, a tradução não se faz do português para o
inglês, mas do inglês para o português. Uma das consequências deste processo é
que alguns articulados em inglês não tem a mesma interpretação e o mesmo valor
do que em português e gera-se aqui obviamente um problema grave de
interpretação. Este é um dos problemas do acordo, um estado que é vassalo em
relação a outro, um acordo que não é reconhecido na ordem interna do estado
mais poderoso, o estado norte-americano, e um acordo que a lei na parte menos
poderosa, na parte mais fraca do vassalo, que é dentro de Portugal. Este tipo
de acordos tem outros problemas que são os acordos secretos. O acordo de 1995
tem acordos secretos e nós sabemos disso, inclusivamente já divulgámos um, o
chamado Ata Secreta do Acordo das Lajes de 1995, que é uma ata que contempla
por exemplo contrapartidas militares em armamento, contrapartidas de formação
militares e outro tipo de contrapartidas. Nestas negociações há sempre várias
partes. Nestas negociações Portugal tem os Negócios estrangeiros, aos quais
interessa fundamentalmente as chamadas contrapartidas imateriais, ou seja, por
exemplo lugares para Portugal em determinados fóruns internacionais, lugares
para Portugal na Presidência da Assembleia Geral da ONU por exemplo, lugares
até para Portugal, há quem diga isso não o posso afirmar, na União Europeia a
posteriori, lugares aqui, lugares ali, ter voz neste areópago, ter voz no outro
são as contrapartidas imateriais. Ao nível das contrapartidas materiais
posicionam-se vários Ministérios e posicionam-se as Forças Armadas. As Forças
Armadas conseguem nestes acordos armamento, nem sempre o melhor, conseguem
sobretudo formação para os militares nos Estados Unidos, um desses programas
chamasse EMET que é um programa que os Estados Unidos assumem como um programa
de formação de militares que depois serão úteis à própria ideologia Norte
Americana nos seus países de origem, isso está escrito. Há outros ministérios
como por exemplo o Ministério da Educação, como o Ministério da Ciência e
Tecnologia, que conseguem contrapartidas ao nível de acordos com universidades norte
americanas, com institutos, enfim parcerias, exceto no que diz respeito à
questão militar e no que diz respeito às contrapartidas imateriais, porque
depois não percebemos muito bem como é que elas são geridas, nas outras
contrapartidas pensamos no que Portugal está a ganhar geralmente, está a
perder, porque nestas relações que se estabelecem com universidades norte
americanas com institutos etc., Portugal acaba por ser em grande parte a
entidade pagante. Isso também está escrito, está em vários documentos que já
foram publicados. A outra parte é a Região Autónoma dos Açores. Neste caso do
acordo de 1995 a Região Autónoma dos Açores não ficou com contrapartidas
imperativas, ficou com contrapartidas no âmbito do que pudesse vir a ser
negociado e com documentos indicativos. O resultado tem sido extremamente
negativo. A Região Autónoma dos Açores em termos de contrapartidas das Lajes
não tem praticamente nenhumas. Dir-se-á que têm os vencimentos, os ordenados da
Base das Lajes, mas isso não são contrapartidas, isso é obviamente uma força
laboral que presta serviço a uma entidade que precisa dela, porque se não
precisasse dela ela não estaria lá. Além do mais resta estudar, por exemplo, se
esse dinheiro que entrará em parte na economia da ilha, e efetivamente não
entra, porque em boa parte entra nas lojas BX das Lajes onde os trabalhadores
fazem compras, como outra parte entrará na ilha, se esse dinheiro não será
depois contrabalançado em termos negativos pelo dinheiro local que entra nas
lojas BXs. Já foram divulgados estudos muito preliminares que apontam
praticamente para uma coincidência entre o volume de salários pagos anualmente
na Base das Lajes e o volume de negócios em euros das lojas BX, o que
obviamente é um indicador muito interessante. Ora este acordo tem ainda uma
componente, não é de grande importância, aliás o Sr. Presidente da Câmara
Municipal da Praia da Vitória ainda hoje falava, hoje ou ontem suponho que
falava nessa componente no Diário Insular, que é a componente laboral, a
chamada questão laboral da Base das Lajes. Esta questão é para mim de uma
enorme complexidade, eu tenho tentado estudá-la, designadamente abordando os
vários acordos estabelecidos pelos Estados Unidos, acordos alguns de
contratação direta, outros de contratação indireta, conforme os países, todos
eles são muito complexos. A conclusão a que eu chego relativamente à Base das
Lajes é que, em termos laborais, não há lei na Base das Lajes. Não há lei
porque não há acesso obrigatório à justiça. O acesso à justiça pode ser
bloqueado. Designadamente pode ser bloqueado através de um esquema de comissões
sem prazo para decidir, que podem na prática impedir que um trabalhador chegue
à justiça portuguesa, porque tem de passar por essas comissões todas para poder
ter acesso aos tribunais, e essas comissões não tem prazo para decidir. Eu
pesquisei e concluí, através de conversas com negociadores à altura, que isso
foi premeditado e tem por objetivo evitar fricções nas relações entre os dois
estados, quando uma questão qualquer de ordem laboral possa revelar-se
insolúvel de acordo com os interesses dos dois estados. Nesse caso as
comissões, que são paritárias, não decidem. Não decidem o caso fica em
banho-maria. Pode-se obviamente sempre tentar por via paralela, o recurso aos
tribunais, sem passar por aquelas comissões todas, mas depois há um problema
porque a sentença só é, a sentença desce, qualquer sentença desce à comissão
bilateral permanente que não tem prazo para a mandar aplicar, não pode negar a
sentença, não pode modificá-la, mas não tem prazo para mandar aplicá-la, o que
significa que na prática ela pode nunca ser aplicada. Mas o que preocupa agora
as pessoas relativamente à questão laboral é só se vai ou não haver
despedimentos na Base das Lajes. Ora este “vai ou não haver despedimentos na
base das Lajes?!” insere-se num segmento ainda mais complexo desta história da
Base das Lajes. Tem a ver com conhecimento. Ou seja, o que é que nós, eu podia
questionar o que é que nós Portugal, mas por agora vou fazer o que é que nós
Açores, o que é que nós conhecemos em termos da nossa geopolítica, da nossa
posição geoestratégica e do interesse que estas duas componentes possam ter
para a potência com a qual negociamos, no caso os Estados Unidos da América?!
Nós não conhecíamos no acordo de 95 e continuamos a não conhecer, porque não
estudamos estes dossiês. Portanto nós não sabemos para que é que os Estados
Unidos querem a Base das Lajes, se eles não nos disserem e não sabemos, porque
não sabemos para que é que eles querem, não sabemos quais são as missões, não
sabemos também quantas pessoas eles têm de ter aqui na Base das Lajes. Nem
sequer sabemos quando eles atiram com o isco da Pan Am, se não estarão a atirar
com uma capa para manterem a Base das Lajes como aquilo que eles chamam um site
adormecido. O que é um site, um sítio adormecido? O que é um sítio adormecido?
É uma base de projeção de força que tem que estar permanentemente preparada
para apoiar qualquer projeção de força, mas que não tem que ter necessariamente
lá fisicamente todas as pessoas necessárias para ativar a base em caso de
projeção. Essas pessoas estão numa base nos Estados Unidos, e já foi testado
aqui na ilha Terceira nas duas guerras do Iraque, a de 91 e a de 2000 e
qualquer coisa, as pessoas estão numa base nos estados unidos, estão treinadas
com estes equipamentos, são projetadas à frente da força, reativam a base e a
força faz o seu percurso a seguir. Ora estes mecanismos têm de ser muito bem
compreendidos para podermos negociar, designadamente no jogo das
contrapartidas, porque no jogo das contrapartidas nós podemos colocar gente
nossa aqui se soubermos quantas pessoas é que são necessárias face à missão.
Mas nós não sabemos porque nós não estudamos para que missões é que a Base das
Lajes é necessária, qual é que vai ser o papel futuro e qual é que é o papel
atual da Base das Lajes. Relativamente à parte Açoriana. Não há uma Agenda
Açoriana para a Base das Lajes. Eu podia aqui dizer “não há uma Agenda Açoriana
para a questão geopolítica e geoestratégica”, mas como estamos a falar aqui da
Base das Lajes, não há uma Agenda Açoriana para a Base das Lajes. Uma Agenda
para a Base das Lajes teria que ser construída com base em conhecimento
sistematizado e sistematicamente actualizado, com base em organismos de estudo
permanentemente a trabalhar e com base obviamente num pacote de interesses
permanentes que teriam de estar sempre em cima da mesa quer se estivesse a
negociar quer não se estivesse a negociar os nossos interesses permanentes
relativamente à Base das Lajes, mas não são interesses como quem manda uma
carta ao Pai Natal, teriam de ser interesses fundamentados, estando
permanentemente em cima da mesa e permanentemente em negociação. E há uma
segunda componente, com a qual nós não queremos ou não sabemos jogar, que é a
componente soft power que nós temos muito, a componente opinião pública. A
opinião pública é de uma enorme importância para o Estado que tem, por exemplo,
como é o nosso caso, uma força estrangeira hospedada. Porquê? Porque a opinião
pública tem que participar no processo de construção do nosso caderno de
interesses permanentes, e essa força que aqui está, tem que perceber que para
estar bem aqui, tem que dar resposta àquilo que nós achamos justo, não só nós,
não só os políticos, os comentadores, mas a opinião pública. O que mais importa
em termos por exemplo, dos interesses Norte Americanos quando estão instalados
numa base é o comportamento da opinião pública junto daquela base. Ora nós
temos mantido a nossa opinião pública afastada deste processo. Relativamente
aos interesses específicos do concelho da Praia da Vitória e eu daqui a pouco
já me calo para podermos dialogar. Relativamente aos interesses específicos do
concelho da Praia da Vitória. Esses interesses específicos do concelho da Praia
da Vitória teriam de fazer parte desta Agenda Açoriana para a Base das Lajes,
esta agenda permanente. Como não há agenda permanente os interesses específicos
do concelho da Praia da Vitória obviamente não estão nessa agenda porque ela
não existe. No entanto a Praia da Vitória tem na minha opinião grandes razões
para tentar de qualquer maneira colocar os seus interesses numa agenda, porque
eles são muitos e variados. Desde logo, e é um assunto que eu investiguei e
investiguei profundamente e com algumas consequências pessoais chatas e
complicadas para mim, tem a ver com estes processos de contaminação. A Praia da
Vitória, o povo da Praia da Vitória tem que saber urgentemente o que se passou
aqui em três momentos e quais são as consequências que ainda hoje está e pode
sofrer no futuro. O momento dos lançamentos de DDT em cima das pessoas. Quais
são as consequências? É possível hoje estudar cientificamente por processos
chamados de regressão e também por estudos de epidemiologia na área das
doenças, é possível estudar e perceber o que é que se passou. E eu lembro-vos
que nesse caso, e fora do acordo, é possível processar o infrator dentro do seu
próprio país. O povo da Praia da Vitória tem que saber também, isso hoje já
está provado, está escrito, o que se passou com os silos de armas nucleares que
estiveram aqui na Praia da Vitória? Onde é que eles tiveram e se ficaram
resíduos? Eu, pessoalmente penso que não ficaram. Mas onde tiveram e se ficaram
resíduos? E se há algumas consequências atribuíveis dessa permanência de
armamento nuclear aqui na Base das Lajes, designadamente eram cargas nucleares
de profundidade usadas pelos aviões nucleares P3 Orion que estiveram aqui
estacionados muitos anos para a guerra antissubmarina. Finalmente a Praia da
Vitória não se pode ficar pelo que se está a passar relativamente à
contaminação de solos e aquíferos por hidrocarbonetos. O estudo feito pelo LNEC
é um estudo minimalista, o estudo de 2005 encomendado pelos americanos é muito
menos minimalista, não foi sequer seguido neste estudo do LNEC, face à
encomenda feita ao LNEC, a extensão e as consequências dessa contaminação têm
que ser percebidas e é preciso estudar paralelamente ao norte-americano que é o
infrator, é preciso estudar quais são as formas de resolver isto, é preciso
estudar no mercado internacional como é que se resolve estes problemas e não é
ficar apenas à espera que o infrator engendre um plano, que apresente esse
plano quando quiser e que o aplique como lhe passar pela cabeça. A Praia da
Vitória tem urgentemente, em meu entender, na minha opinião pessoal, que
resolver este problema e recorrer à justiça para que o seu povo e as suas
instituições sejam ressarcidos de tudo o que aqui aconteceu. A Praia da Vitória
tem também em meu entender que resolver o problema dos impostos que não são
pagos, designadamente os impostos sobre as habitações, designadamente os
impostos sobre a circulação de viaturas, mas neste caso dialogando com o
município de Angra do Heroísmo, e tem que o fazer rapidamente e contabilizar
rapidamente, para tentar meter numa possível agenda das negociações. O concelho
da Praia da Vitória tem, também, que tentar ser parceiro privilegiado nos
arranjos negociais relativamente a um novo acordo, designadamente eu já ouvi
falar nalgumas coisas, mas nada vos posso garantir porque não sei nada de
concreto, mas o novo acordo poderá ter a ver, poderá incluir alguns elementos
relacionados com criação de emprego etc., e o concelho da Praia da Vitória terá
que estar na minha opinião muito atento, terá que se antecipar, terá inclusive
que estudar as consequências da eventual saída de 400 trabalhadores da Base das
Lajes, para tentar através das contrapartidas que eventualmente estarão a
negociar, que o emprego a induzir seja sobretudo induzido no concelho da Praia
da Vitória, porque o concelho da Praia da Vitória será obviamente o primeiro a
perder. Bom, eu não vos posso dar muitas esperanças sobre a eficácia de nada do
que aqui vos disse, precisamente pelo que vos disse antes, ou seja, estes
acordos são acordos extremamente complexos, Portugal é um país vassalo no
sistema internacional, os Estados Unidos nem se dão ao trabalho de integrar estes
acordos na sua ordem jurídica interna, há muitos interesses Portugueses em
jogo, os Açores não tem conhecimento nem tem uma agenda sistematizada nem
mobilizaram-se de forma sistemática a sua opinião pública e a opinião pública,
essa também de enorme importância, nas nossas comunidades nos Estados Unidos.
Não são apenas os políticos a opinião pública, ou seja degradar a nossa
situação dos nossos políticos na América através da sua base de apoio, de quem
vota neles, e esse trabalho tem de ser sistemático, nunca esquecendo que as
relações entre estados resolvem-se entre Portugal e os Estados Unidos, nunca
esquecendo também que os Açores tem o direito constitucional de participar na
elaboração dos acordos internacionais que lhe dizem respeito e também nos benefícios,
e finalmente nunca esquecendo que provavelmente a Região Autónoma dos Açores
decidiu desde 1996 hipotecar este 2º ponto da constituição, o ponto dos
benefícios em troca da Lei das Finanças Regionais, designadamente a Lei das
Finanças Regionais ou, o nome correto não é este, Lei das Finanças das Regiões
Autónomas, integram um ponto que para juízes do tribunal constitucional com
quem eu falei é um ponto considerado muito estranho e inconstitucional só que
nunca ninguém fez queixa, no qual diz assim: “e tal as regiões continuam a ter
direito a participar nas negociações dos acordos ou tratados internacionais que
lhes digam respeito”, e deixa cair o 2º ponto, ou seja, deixam de ter direito a
participar nos benefícios. Aquela era a contrapartida pelos benefícios. Este
assunto também terá que ser tratado, porque se aquela é a contrapartida pelos
benefícios nós podemos fazer conferências, podemos ter massa crítica, podemos
começar a estudar estes dossiês, que não chegamos a lado nenhum enquanto a
contrapartida já estiver resolvida, e neste caso já está resolvida onde deve
estar que é com o estado Português, através da Lei das Finanças das Regiões
Autónomas.
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terça-feira, 5 de junho de 2018
All Souls and the Wider World:
Statesmen, Scholars, and Adventurers, c. 1850-1950
Edited by S J D Green & Peregrine Horden - Oxford University Press. 09.2012
"I used to think that public life would be improved if the universities had more influence. The history of “All Souls” as recounted here makes me think again."
By Vernon Bogdanor. Research professor at the Institute for Contemporary History, King's College, London
New Statesmen - Magazine
Statesmen, Scholars, and Adventurers, c. 1850-1950
Edited by S J D Green & Peregrine Horden - Oxford University Press. 09.2012
"I used to think that public life would be improved if the universities had more influence. The history of “All Souls” as recounted here makes me think again."
By Vernon Bogdanor. Research professor at the Institute for Contemporary History, King's College, London
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quinta-feira, 10 de maio de 2018
Vasco Pulido Valente, em “De mal a pior” (2016)
Nota da distribuidora Wook sobre o autor:
Nota da distribuidora Wook sobre o autor:
“Vasco Pulido Valente recusa aceitar mansamente a forma como
o Estado pretende mandar na vida de todos, proibindo o tabaco, combatendo a
comida pouco saudável ou forçando cada pessoa a zelar pelo seu corpo, quer
queira quer não. Ao constatar que, na sociedade actual, «o indivíduo morreu»,
protesta e lamenta: «Não fui feito para isto»”.
Talvez seja
uma raridade no mundo da crónica jornalística e editorial. Embora com acidez, enxerga desassombradamente
o obvio, e talvez por isso tenha tantos seguidores nos jornais onde escreve.
terça-feira, 8 de maio de 2018
Theories and opinions about War - Clausewitz & others.
“War therefore is an act of violence intended to compel our opponent to fulfil our will.''
(...)
“War therefore is an act of violence intended to compel our opponent to fulfil our will.''
(...)
"War is neither a scientific game nor an international sport; it is an act of violence, characterized by destruction."
(...)
" ... war exists in the realm of chance. The most certain idea about war lies in the uncertainty of it."
(...) "War is only a branch of political activity… it is in no sense autonomous."
(...)‘War is nothing more than the continuation of politics by other means…
For political aims are the end and war is the means, and the means can
never be conceived without the end."
(...)
" When the … required outlay becomes so great that political object is no longer
equal in value, the object must be given up, and peace will be the
result. In wars where one side cannot disarm the other side entirely,
the motives towards peace will rise and fall on each side depending on
the probability of future success."
Carl von Clausewitz: ON WAR. Book 1, Chapter 1
"(...) There are two motives that lead men to war in the absolute and total
sense, instinctive hostility and hostile intention.
In terms of absolute
war, Clausewitz discusses three characteristics that make it unique.
First, the utmost use of force is necessary. Second, the aim is to
disarm the enemy. Lastly, absolute war calls for the utmost exertion of
powers. However, absolute war only exists in the abstract ..."
"(...) three objectives for success (in war). First, the armed forces of the opponent
must be destroyed. Second, the country must be occupied. Third, the will
of the enemy must be broken."
"(...) Though Clausewitz admits that war could begin again directly after the
peace, he argues that it only serves to prove that war does not carry in
itself elements for a final settlement of peace. War, though not always
constant, is continual. "
"(...) Throughout Vom Kriege, Carl von Clausewitz, continually refers to a ‘remarkable’ or ‘paradoxical’ trinity which drives real war, composed of 1) primordial violence, enmity, and hatred 2) chance and probability, and 3) the element of war of subordination to rational policy. The trinity serves as a magnet to balance the three forces of war – the people, the military, and the statesmen. Clausewitz argues that the passions that kindle war must be innate in the people, the courage and talent of the commander and army plays into the realm of probability and chance, but the political aims are only the business of the government alone. Though, without the three branches working in harmony, war cannot be successfully waged."
"(...) Throughout Vom Kriege, Carl von Clausewitz, continually refers to a ‘remarkable’ or ‘paradoxical’ trinity which drives real war, composed of 1) primordial violence, enmity, and hatred 2) chance and probability, and 3) the element of war of subordination to rational policy. The trinity serves as a magnet to balance the three forces of war – the people, the military, and the statesmen. Clausewitz argues that the passions that kindle war must be innate in the people, the courage and talent of the commander and army plays into the realm of probability and chance, but the political aims are only the business of the government alone. Though, without the three branches working in harmony, war cannot be successfully waged."
Jordan Lindell, Nov 26 2009
‘What Clausewitz meant is that war… is not an autonomous game produced
by fixed external or internal constraints; it is instead a matter of
political choice, reflecting all the variety of political purposes that
make wars into exterminations.’
(Doyle 1997: 23)
“Older men declare war. But it is youth that must fight and die.”
― Herbert Hoover
― Herbert Hoover
“When the rich wage war it's the poor who die.”
― Jean-Paul Sartre, Le diable et le bon dieu
― Jean-Paul Sartre, Le diable et le bon dieu
“I am young, I am twenty years old; yet I know nothing of life but
despair, death, fear, and fatuous superficiality cast over an abyss of sorrow.
I see how peoples are set against one another, and in silence, unknowingly,
foolishly, obediently, innocently slay one another.”
― Erich Maria Remarque, All Quiet on the Western Front
― Erich Maria Remarque, All Quiet on the Western Front
“A
true war story is never moral. It does not instruct, nor encourage virtue, nor
suggest models of proper human behavior, nor restrain men from doing the things
men have always done. If a story seems moral, do not believe it. If at the end
of a war story you feel uplifted, or if you feel that some small bit of
rectitude has been salvaged from the larger waste, then you have been made the
victim of a very old and terrible lie. There is no rectitude whatsoever. There
is no virtue. As a first rule of thumb, therefore, you can tell a true war
story by its absolute and uncompromising allegiance to obscenity and evil.”
― Tim O'Brien, The Things They Carried
― Tim O'Brien, The Things They Carried
“He
who joyfully marches to music rank and file has already earned my contempt. He
has been given a large brain by mistake, since for him the spinal cord would
surely suffice. This disgrace to civilization should be done away with at once.
Heroism at command, senseless brutality, deplorable love-of-country stance and
all the loathsome nonsense that goes by the name of patriotism, how violently I
hate all this, how despicable and ignoble war is; I would rather be torn to
shreds than be part of so base an action! It is my conviction that killing
under the cloak of war is nothing but an act of murder.”
― Albert Einstein
― Albert Einstein
“Religion
isn't the cause of wars, it's the excuse.”
― Jasper Fforde, The Eyre Affair
― Jasper Fforde, The Eyre Affair
“Rules
are for children. This is war, and in war the only crime is to lose.”
― Joe Abercrombie, Last Argument of Kings
― Joe Abercrombie, Last Argument of Kings
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Política
segunda-feira, 8 de janeiro de 2018
O Transporte Aéreo Português e Insular - com base ou suporte Publico.
Sobre os
serviços públicos de transporte aéreo que tem vindo a se desenvolver e a
crescer no espaço nacional e insular, quer no bom sentido quer no mau, vale a
pena revisitar artigo publicado nos Açores, no Ano da Graça de 2006, cujo link
a seguir se anexa.
Em caso do link acima estar dispovível, um alternativo segue abaixo
Em altura própria
transferir-se-á para aqui sumário do processo que levou à criação, operação, declínio,
absorção e transformação da Oceanair Transportes Aéreos Regionais SA, constituída
a 10/12/1990 e adquirida pela SATA em 1994, em SATA Internacional
em 1998.
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Pico and Central Group Islands - Azores,
Política
terça-feira, 14 de março de 2017
Civilized Savages
“Each new generation born is in effect an invasion of civilization by little barbarians, who must be civilized before it is too late.”
Thomas Sowell,
"One of the most dangerous errors instilled into us by nineteenth-century progressive optimism is the idea that civilization is automatically bound to increase and spread. The lesson of history is the opposite; civilization is a rarity, attained with difficulty and easily lost. The normal state of humanity is barbarism, just as the normal surface of our planet is salt water. Land looms large in our imagination of the planet and civilization in our history books, only because sea and savagery are, to us, less interesting.
And if you press to know what I mean by civilization, I reply “Humanity,” by which I do not mean kindness so much as the realization of the human idea. Human life means to me the life of beings for whom the leisured activities of thought, art, literature, conversation are the end, and the preservation and propagation of life merely the means. That is why education seems to me so important: it actualizes that potentiality for leisure, if you like for amateurishness, which is man’s prerogative.
You have noticed, I hope, that man is the only amateur animal; all the others are professionals. They have no leisure and do not desire it. When the cow has finished eating she chews the cud; when she has finished chewing she sleeps; when she has finished sleeping she eats again. She is a machine for turning grass into calves and milk—in other words, for producing more cows. The lion cannot stop hunting, nor the beaver building dams, nor the bee making honey. When God made the beasts dumb He saved the world from infinite boredom, for if they could speak they would all of them, all day, talk nothing but shop."
C.S. Lewis - “Our English Syllabus”.
quarta-feira, 20 de julho de 2016
Contos Proibidos - Memórias de um PSD desconhecido
Aguarda-se, "ansiosamente", pela escrita e publicação do novo "best seller" a denominar "Contos Proibidos - Memórias de um PSD desconhecido", com a participação especial de Anibal, Loureiro, Lima & Comp, S.A. no elenco de "actores".
Não confundir com os "Contos proibidos do Marquês de Sade" ou com os "Contos proibidos : memórias de um PS desconhecido", de Rui Mateus.
Fernando Pessoa e a Verdade da Mentira
PORTUGAL, VASTO IMPÉRIO - Um inquérito nacional
A resposta de Fernando Pessoa:
(...)
IV - Sim ou não o moral da Nação pode ser levantado por uma intensa propaganda, pelo jornal, pela revista e pelo livro, de forma a criar uma mentalidade colectiva capaz de impor aos políticos uma política de grandeza nacional?
Na hipótese afirmativa, qual o caminho a seguir?Há só uma espécie de propaganda com que se pode levantar o moral de uma nação — a construção ou renovação e a difusão consequente e multímoda de um grande mito nacional. De instinto, a humanidade odeia a verdade, porque sabe, com o mesmo instinto, que não há verdade, ou que a verdade é inatingível.
O mundo conduz-se por mentiras; quem quiser despertá-lo ou conduzi-lo terá que mentir-lhe delirantemente, e fá-lo-á com tanto mais êxito quanto mais mentir a si mesmo e se compenetrar da verdade da mentira que criou.
A resposta de Fernando Pessoa:
(...)
IV - Sim ou não o moral da Nação pode ser levantado por uma intensa propaganda, pelo jornal, pela revista e pelo livro, de forma a criar uma mentalidade colectiva capaz de impor aos políticos uma política de grandeza nacional?
Na hipótese afirmativa, qual o caminho a seguir?Há só uma espécie de propaganda com que se pode levantar o moral de uma nação — a construção ou renovação e a difusão consequente e multímoda de um grande mito nacional. De instinto, a humanidade odeia a verdade, porque sabe, com o mesmo instinto, que não há verdade, ou que a verdade é inatingível.
O mundo conduz-se por mentiras; quem quiser despertá-lo ou conduzi-lo terá que mentir-lhe delirantemente, e fá-lo-á com tanto mais êxito quanto mais mentir a si mesmo e se compenetrar da verdade da mentira que criou.
“Sometimes people don't want to hear the truth because they don't want their illusions destroyed." Friedrich Nietzsche
quarta-feira, 6 de julho de 2016
O Neo-PSD, segundo Pacheco Pereira
Costuma dizer-se que uma imagem vale mil palavras e esta,
seguramente, vale mais que mil pelo que nos diz sobre o actual curso do
neo-PSD. Pode sempre dizer-se que em si não tem muita importância, – e
não tem, – que pode ter sido um lapso ou uma desatenção, ou que não
justifica que se perca muito tempo com ela. Mas merece, porque ela é
tudo isso e mais do que isso. É “reveladora”, ilumina muita coisa que é
dita e, acima de tudo, muita coisa que não é dita, na vida, nas ideias,
no imaginário, visto que se trata de uma imagem de natureza religiosa,
plena de referências muito antigas à imagética ocidental de carácter
escatológico. Trata-se de uma imagem desprovida de conteúdo político
explícito e especialmente de conteúdo político social-democrata, mas
densa de ideologia e espiritualidade. A ideologia é má e a
espiritualidade é banal e “new age”, mas é o que é. A imagem é um
tratado sobre a mentalidade, sobre um certo autodidactismo que se
sobrepõe à formação académica ou à falta dela e, principalmente,
fala-nos sobre os mecanismos de representação do mundo, e do desejo de o
atravessar com sucesso, da actual direcção do PSD. É também uma imagem
que revela a “cultura” do consumidor da Internet, via Facebook e “redes
sociais”. A imagem é, aliás, um compósito copiado de outras imagens de
um site na Internet, mas a natureza desse compósito num
documento político é que é relevante e original. Que tenha passado pela
cabeça de responsáveis de uma instituição tão importante na vida de um
partido como um Grupo Parlamentar, onde hoje se senta também Passos
Coelho, é que é “revelador”.
"Que imagem é esta de que de certeza o leitor nunca ouviu falar? Da capa da edição em papel de 222 Propostas Social-Democratas,
um guião para um “verdadeiro programa nacional de reformas”, de autoria
do Grupo Parlamentar do PSD. Uma espécie de programa do governo,
apresentado sobre as cinzas do célebre guião de copy-paste de
Portas e que se pretende contrapor ao Plano Nacional de Reformas do PS, o
“falso programa de reformas”, a que alude o “verdadeiro”. O documento
merece discussão em si, mas a capa merece-o muito mais. Porque a capa é
original, mesmo se copiada, a única coisa original no plano simbólico
que vi produzida pelo PSD nos últimos anos. Já vi muita coisa no PSD, a
começar pelo canto do “menino guerreiro”, mas ainda devo continuar capaz
de me surpreender.
A capa tem no centro, como motivo principal, uma imagem de carácter religioso: a célebre Escada da Divina Ascensão, subida por João Clímaco a caminho do Paraíso. João Clímaco era também conhecido como “João da Escada”. Há vários ícones orientais representando-a, exactamente da mesma forma que aqui o PSD a representa. Só que, aqui, é o Homem da Regisconta que a sobe com o seu fato de executivo e segurando a mesma pasta que é a sua marca inconfundível. A versão é a do Homem da Regisconta visto por trás, afastando-se de nós a caminho do Paraíso e, para saber o caminho, tem uma espécie de folha de rascunho, de apontamentos de uma reunião, um workshop empresarial, ou motivacional, que funciona como um blueprint para a salvação. Melhor: tem um “business plan”. Esse mapa para o divino lugar, implica o uso da informática, da “social media”, do marketing, do “business”, da estratégia e de uma panóplia de gráficos de barras e “pie charts” habituais em documentos empresariais e, de novo, nos cursos de gestão de baixa qualidade. Numa demonstração de grande originalidade, uma ideia nova é representada pela lâmpada da banda desenhada e está lá ao lado de um cifrão. Peço desculpa por usar muitas palavras em inglês, mas é em inglês que está escrita a folha negra com instruções para o caminho para o “sucesso” com ponto de exclamação: “success!!”.
Cada degrau é um passo a caminho do Paraíso, que, no Tratado de João Clímaco, se inicia pelo ascetismo e termina pela plena perfeição das virtudes: Aqui, também o Homem da Regisconta sobe uma mesma escada no cumprimento do “business plan” escrito nas paredes, onde o negro predomina para nos ofuscarmos com a luz sagrada da ascese. Como acontece com muitas das imagens deste tipo, inscritas mesmo que inconscientemente no nosso imaginário, há uma mescla de caverna de Platão, da escatologia cristã oriental, posteriormente revista por uma imagética de natureza maçónica. Sim, porque a imagem é igualmente uma metáfora maçónica, o que não é de admirar no neo-PSD onde predomina a obediência a várias maçonarias, algumas bem pouco recomendáveis. O caminho para a “luz”, que espreita detrás de um buraco de fechadura, igualmente copiadas de um site na Internet, repete uma imagética maçónica que associa os “mistérios” a um buraco de fechadura, cuja abertura representa essa iniciação na plena sabedoria. Resumindo e concluindo: o homem dos dias de hoje, um jovem executivo, ou um profissional de marketing, ou um diligente “jota”, tem nesta imagem sagrada a sua forma de aceder ao divino, ou seja, ao sucesso.
O que é que isto tem a ver com o Estado? Nada. Com reformas políticas? Nada. Com o povo e a melhoria das suas condições de vida? Nada de nada. Com uma mensagem política subliminar? Sim. É uma mensagem para o indivíduo, porque é do sucesso individual que se trata no mundo do “empreendedorismo”, não para um país, ou uma comunidade, uma classe ou uma nação. É uma mensagem esforçada e antiquada, com décadas de atraso, para o “homem da Regisconta” do início da informática e da entrada das máquinas de calcular e da moderna gestão no mundo empresarial. Nem sequer é para o yuppie da bolsa, nem o criativo das dot.com, nem para as start-up. Na verdade há muita incompetência e muita ignorância nestas incongruências, mas pouco importa.
É pelo “negócio” que se chega à salvação. É pela vulgata da linguagem dos “business plan” que se encontra o caminho para a “luz” ou seja, para o “sucesso”. O neo-PSD dos nossos dias pensa assim, ou seja, não pensa, tem uma fé. Na prática, quase tudo o que faz é de outra natureza, muito mais antiquada, a gestão de cunhas e acordos, de controlos e influências, mas precisa de “espírito”, de uma espécie de religião barata e que não dê muito trabalho e vai procurá-lo aqui. Não é uma religião verdadeira, é mais uma seita, uma confraria, uma irmandade, uma loja.
O que é que isto tem a ver com o PSD no seu conjunto e, acima de tudo, na sua história e identidade? Nada. É uma ideologia neófita de parte do aparelho que hoje controla o partido. Faço justiça a muitos dedicados militantes, por exemplo, nas autarquias, que não querem saber disto para nada. Aprenderam com a sua acção a ser muito mais terra-a-terra e a não ter ilusões com esta maravilhosa escada para a “luz”. Sabem muito bem, com um saber de experiência feito, como é a usura da política quotidiana. São católicos, apostólicos romanos, muitos não são praticantes, muitos são até naturalmente pouco ou nada religiosos e não querem saber deste mambo jambo maçónico para nada. Já cá estavam antes e vão continuar a cá estar depois. Mas este caminho hoje seguido pelos neo-PSDs faz imensos estragos naquele que é o maior partido político português e, por essa via, a Portugal. Quem deve estar a rabiar naquele título e por baixo dos pés do Homem da Regisconta é a palavra “social-democrata”, essa sim que não caminha para o buraco da fechadura iniciática mas para servir de capacho ao “Homem da Regisconta” que lhe volta as costas. É aliás esse o lugar que tem na capa. De facto as imagens falam com muito mais que mil palavras."
A capa tem no centro, como motivo principal, uma imagem de carácter religioso: a célebre Escada da Divina Ascensão, subida por João Clímaco a caminho do Paraíso. João Clímaco era também conhecido como “João da Escada”. Há vários ícones orientais representando-a, exactamente da mesma forma que aqui o PSD a representa. Só que, aqui, é o Homem da Regisconta que a sobe com o seu fato de executivo e segurando a mesma pasta que é a sua marca inconfundível. A versão é a do Homem da Regisconta visto por trás, afastando-se de nós a caminho do Paraíso e, para saber o caminho, tem uma espécie de folha de rascunho, de apontamentos de uma reunião, um workshop empresarial, ou motivacional, que funciona como um blueprint para a salvação. Melhor: tem um “business plan”. Esse mapa para o divino lugar, implica o uso da informática, da “social media”, do marketing, do “business”, da estratégia e de uma panóplia de gráficos de barras e “pie charts” habituais em documentos empresariais e, de novo, nos cursos de gestão de baixa qualidade. Numa demonstração de grande originalidade, uma ideia nova é representada pela lâmpada da banda desenhada e está lá ao lado de um cifrão. Peço desculpa por usar muitas palavras em inglês, mas é em inglês que está escrita a folha negra com instruções para o caminho para o “sucesso” com ponto de exclamação: “success!!”.
Cada degrau é um passo a caminho do Paraíso, que, no Tratado de João Clímaco, se inicia pelo ascetismo e termina pela plena perfeição das virtudes: Aqui, também o Homem da Regisconta sobe uma mesma escada no cumprimento do “business plan” escrito nas paredes, onde o negro predomina para nos ofuscarmos com a luz sagrada da ascese. Como acontece com muitas das imagens deste tipo, inscritas mesmo que inconscientemente no nosso imaginário, há uma mescla de caverna de Platão, da escatologia cristã oriental, posteriormente revista por uma imagética de natureza maçónica. Sim, porque a imagem é igualmente uma metáfora maçónica, o que não é de admirar no neo-PSD onde predomina a obediência a várias maçonarias, algumas bem pouco recomendáveis. O caminho para a “luz”, que espreita detrás de um buraco de fechadura, igualmente copiadas de um site na Internet, repete uma imagética maçónica que associa os “mistérios” a um buraco de fechadura, cuja abertura representa essa iniciação na plena sabedoria. Resumindo e concluindo: o homem dos dias de hoje, um jovem executivo, ou um profissional de marketing, ou um diligente “jota”, tem nesta imagem sagrada a sua forma de aceder ao divino, ou seja, ao sucesso.
O que é que isto tem a ver com o Estado? Nada. Com reformas políticas? Nada. Com o povo e a melhoria das suas condições de vida? Nada de nada. Com uma mensagem política subliminar? Sim. É uma mensagem para o indivíduo, porque é do sucesso individual que se trata no mundo do “empreendedorismo”, não para um país, ou uma comunidade, uma classe ou uma nação. É uma mensagem esforçada e antiquada, com décadas de atraso, para o “homem da Regisconta” do início da informática e da entrada das máquinas de calcular e da moderna gestão no mundo empresarial. Nem sequer é para o yuppie da bolsa, nem o criativo das dot.com, nem para as start-up. Na verdade há muita incompetência e muita ignorância nestas incongruências, mas pouco importa.
É pelo “negócio” que se chega à salvação. É pela vulgata da linguagem dos “business plan” que se encontra o caminho para a “luz” ou seja, para o “sucesso”. O neo-PSD dos nossos dias pensa assim, ou seja, não pensa, tem uma fé. Na prática, quase tudo o que faz é de outra natureza, muito mais antiquada, a gestão de cunhas e acordos, de controlos e influências, mas precisa de “espírito”, de uma espécie de religião barata e que não dê muito trabalho e vai procurá-lo aqui. Não é uma religião verdadeira, é mais uma seita, uma confraria, uma irmandade, uma loja.
O que é que isto tem a ver com o PSD no seu conjunto e, acima de tudo, na sua história e identidade? Nada. É uma ideologia neófita de parte do aparelho que hoje controla o partido. Faço justiça a muitos dedicados militantes, por exemplo, nas autarquias, que não querem saber disto para nada. Aprenderam com a sua acção a ser muito mais terra-a-terra e a não ter ilusões com esta maravilhosa escada para a “luz”. Sabem muito bem, com um saber de experiência feito, como é a usura da política quotidiana. São católicos, apostólicos romanos, muitos não são praticantes, muitos são até naturalmente pouco ou nada religiosos e não querem saber deste mambo jambo maçónico para nada. Já cá estavam antes e vão continuar a cá estar depois. Mas este caminho hoje seguido pelos neo-PSDs faz imensos estragos naquele que é o maior partido político português e, por essa via, a Portugal. Quem deve estar a rabiar naquele título e por baixo dos pés do Homem da Regisconta é a palavra “social-democrata”, essa sim que não caminha para o buraco da fechadura iniciática mas para servir de capacho ao “Homem da Regisconta” que lhe volta as costas. É aliás esse o lugar que tem na capa. De facto as imagens falam com muito mais que mil palavras."
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Política
domingo, 26 de junho de 2016
“Sempre que se faz uma revolução, devemos ser nós a organizar a direita antes que a direita se organize a si própria”
Lenine
(Um revolução dificilmente se inicia pela direita)
"Logo me lembro de, há anos, Henrique Ruas me haver contado de como o convocaram para ir à “Cova da Moura”, nos primeiros tempos da revolução comuno-socialista, quando Spínola era o dócil Presidente da República. Henrique Ruas compareceu, foi conduzido a uma sala onde já se encontravam umas tantas pessoas que, como ele, não sabiam para que ali tinham sido convocadas. Esperaram. Entrou um oficial do MFA, um coronel, Vasco Gonçalves, que se tornaria em breve famoso como Chefe do Governo comunista de 1976/77. Sobraçava um grosso “dossier”, sentou-se a uma mesa e informou os presentes de que, estando instaurado o regime democrático, não havendo democracia sem Partidos Políticos e apenas se encontrando organizados os Partidos Socialista e Comunista, eles haviam sido escolhidos como as personalidades mais capazes para organizar os Partidos que ainda não existiam. Ao ouvir isto, o Sr. Freitas do Amaral levantou-se: “Nesse caso, não estou aqui a fazer nada”. Logo, Vasco Gonçalves o obrigou a ficar: “O Sr. Professor é a pessoa escolhida para organizar o Partido da Direita”. Assim nasceu o CDS. E assim a “direita” chegou ao estado em que hoje se encontra. Lenine bem sabia ..."
liceu-aristotelico.blogspot.pt
Lenine
(Um revolução dificilmente se inicia pela direita)
"Logo me lembro de, há anos, Henrique Ruas me haver contado de como o convocaram para ir à “Cova da Moura”, nos primeiros tempos da revolução comuno-socialista, quando Spínola era o dócil Presidente da República. Henrique Ruas compareceu, foi conduzido a uma sala onde já se encontravam umas tantas pessoas que, como ele, não sabiam para que ali tinham sido convocadas. Esperaram. Entrou um oficial do MFA, um coronel, Vasco Gonçalves, que se tornaria em breve famoso como Chefe do Governo comunista de 1976/77. Sobraçava um grosso “dossier”, sentou-se a uma mesa e informou os presentes de que, estando instaurado o regime democrático, não havendo democracia sem Partidos Políticos e apenas se encontrando organizados os Partidos Socialista e Comunista, eles haviam sido escolhidos como as personalidades mais capazes para organizar os Partidos que ainda não existiam. Ao ouvir isto, o Sr. Freitas do Amaral levantou-se: “Nesse caso, não estou aqui a fazer nada”. Logo, Vasco Gonçalves o obrigou a ficar: “O Sr. Professor é a pessoa escolhida para organizar o Partido da Direita”. Assim nasceu o CDS. E assim a “direita” chegou ao estado em que hoje se encontra. Lenine bem sabia ..."
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Política
A nova era da gestão da água - morte anunciada da gestão da colectiva da água.
MONDE diplomatique
Le nouvel âge de la gestion de l’eau
Mort annoncée de la gestion communale de l’eau
Mort annoncée de la gestion communale de l’eau
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
A malapata do centro
Independente do "Tag" partidário que Francisco Louçã carregue, a verdade é que, concordando-se com ele ou não, continuam a brilhar no panorama da reflexão política (ou económica) nacional. E aqui segue eco de mais uma das suas intervenções.
Tudo Menos Economia
12 de Novembro de 2015
Francisco Louçã
Um dos aspectos curiosos da crise que vivemos, desde que as eleições conduziram ao fim do governo de Passos-Portas, é a radicalização da política.
Todos notamos esse processo. Não é só nos ódios que escorrem nas caixas de comentários deste blog ou de todos os outros, sobretudo quando o anonimato protege a bravura do insulto, no acinte de tantos dos comentadores, no frenesim de deputados (“repugnante”, grita Luís Montenegro), nos títulos bombásticos dos jornais. Deixemos isso à sua sorte.
Mas convido os leitores e leitoras a olharem para outro aspecto, porventura mais iluminante: a forma como resvalam para a direita algumas personalidades que cultivavam um lugar ao centro e que disso obtinham relevo social, cultural, comunicacional, exemplos como eram de pensamentos arejados e intrigantes.
Vejamos três casos de pessoas que leio com particular interesse e curiosidade.
Luís Aguiar-Conraria, albergado no Observador, confessa ter votado PS e estar retumbantemente arrependido, assinalando com algum humor como esta revelação o tornou popular entre os cronistas do PSD e CDS (diz ele que tem a companhia de Clara Ferreira Alves). Condecorado pelos próceres da direita como cidadão exemplar, Aguiar-Conraria repete os argumentos mais sofridos contra a mudança de política: o salário mínimo não deve aumentar, mais procura é perigoso, é preciso obedecer ao ditames europeus. Assim, alinha-se sofredoramente com quem entende ser mais coerente com o projecto de “austeridade inteligente”, indignado porque, no acordo PS-BE-PCP, os “orçamentos de Estado serão usados para ‘devolver salários, pensões e direitos’, mas nunca declaram que procurarão fazê-lo dentro do quadro das nossas obrigações europeias.” Supõe-se que as “nossas obrigações” são ortogonais em relação à “devolução de salários, pensões e direitos”.
Clara Ferreira Alves, com mais estrondo, descobre-se “anticomunista”, signifique isso o que significar. Portugal é um problema de atraso cultural perpétuo, conclui ela: “Basta ir a Londres e à Tate Modern, e visitar a exposição ‘The World Goes Pop’, para ver como Portugal não consta desta revolução”, e nesse limbo do atraso vingou o PCP durante a ditadura. Depois, descobre Ferreira Alves, nada de confusões: “O contributo de forças como o PCP e o Bloco para a democracia portuguesa é importante, apesar destes desníveis. Mas só é importante por ter sido enquadrado e travado pelo socialismo democrático dos socialistas e a social-democracia dos sociais-democratas.” O centro foi tudo mas agora encaixou-se e está ameaçado pela esquerda, enfim destravada.
Miguel Sousa Tavares, sempre mais directo, acha simplesmente que “dificilmente esta história acabará bem” (o que, consoante o tempo que se lhe dê, será garantidamente um dia verdade e outro dia deixará de o ser), porque “tudo parece girar à roda de quanta mais despesa do Estado será necessária para acolher as benfeitorias que cada um (dos partidos) propõe”. E há temas que o tiram do sério, como o fim dos exames da quarta classe que, como toda a gente sabe, foi a grande inovação do quartel-general cratista da 5 de Outubro para ensinar pedagogia a uma Europa relapsa. Tudo mal nesse acordo do PS com a esquerda.
O que há de comum entre estas três posições, porventura representativas de outras, embora muito especiais como o são os seus autores, é que apoiavam o centro e sem dúvida desejavam a sua vitória. Mas a realidade eleitoral complicou tudo e, perante a pressão desta crise política, um desloca-se para a direita, outra redescobre-se visceralmente “anticomunista” e sente a necessidade de o proclamar e outro bombardeia o novo governo como se estivéssemos no dia do juízo final.
Ora, este é um sintoma do que é algum do centro neste momento. Perturbado com a simples ideia de devolver salários e pensões, depois de nos anos anteriores se ter compungido com os sofrimentos dos pobres trabalhadores e dos velhos, este centro não tolera a prova da escolha. Amedrontado, parece ficar à espera de que não aconteça nada. Melhor com os senhores do costume, habituados que estamos ao fato de Príncipe de Gales do vice-primeiro-ministro e ao canto coral do primeiro-ministro, do que na aventura assustadora do aumento do salário mínimo para 530 euros, isso nunca.
Outros, que há um par de meses eram entusiastas da negociação da dívida, a começar por alguns do PS, preferem hoje que fique tudo esquecido, porque o clima não está para essas coisas, a Grécia assustou as boas almas, vão andando que eu vou lá ter.
Só que, e aí é que está o busílis, falta ao centro a alternativa onde lhe sobra indignação. Há um vislumbre de resposta sobre como gerir as contas públicas? Nada, só o temor reverencial à “Europa”. Há uma palavra sobre como criar emprego ou onde por as fichas do investimento? Nada, os mercados dirão. Há um gesto acerca deste indignante desbaratar de bens públicos ou da teia de interesses entre a banca e a decisão política? Não se espere tanto. Nem se deveria esperar, o centro é o lugar onde não se decide nada, obedece-se à “Europa”.
Porque não tem nada a propor e prefere nada fazer, o centro está a desfalecer. Por isso não me surpreende que alguns dos seus ideólogos ou praticantes se sintam agora forçados a sair para o lado. Só posso elogiar a sua sinceridade e a sua presciência. O que nos estão a dizer é que a esquerda pode e deve enfrentar a direita e que ninguém mais o fará, se não ela.
Tudo Menos Economia
12 de Novembro de 2015
Francisco Louçã
Um dos aspectos curiosos da crise que vivemos, desde que as eleições conduziram ao fim do governo de Passos-Portas, é a radicalização da política.
Todos notamos esse processo. Não é só nos ódios que escorrem nas caixas de comentários deste blog ou de todos os outros, sobretudo quando o anonimato protege a bravura do insulto, no acinte de tantos dos comentadores, no frenesim de deputados (“repugnante”, grita Luís Montenegro), nos títulos bombásticos dos jornais. Deixemos isso à sua sorte.
Mas convido os leitores e leitoras a olharem para outro aspecto, porventura mais iluminante: a forma como resvalam para a direita algumas personalidades que cultivavam um lugar ao centro e que disso obtinham relevo social, cultural, comunicacional, exemplos como eram de pensamentos arejados e intrigantes.
Vejamos três casos de pessoas que leio com particular interesse e curiosidade.
Luís Aguiar-Conraria, albergado no Observador, confessa ter votado PS e estar retumbantemente arrependido, assinalando com algum humor como esta revelação o tornou popular entre os cronistas do PSD e CDS (diz ele que tem a companhia de Clara Ferreira Alves). Condecorado pelos próceres da direita como cidadão exemplar, Aguiar-Conraria repete os argumentos mais sofridos contra a mudança de política: o salário mínimo não deve aumentar, mais procura é perigoso, é preciso obedecer ao ditames europeus. Assim, alinha-se sofredoramente com quem entende ser mais coerente com o projecto de “austeridade inteligente”, indignado porque, no acordo PS-BE-PCP, os “orçamentos de Estado serão usados para ‘devolver salários, pensões e direitos’, mas nunca declaram que procurarão fazê-lo dentro do quadro das nossas obrigações europeias.” Supõe-se que as “nossas obrigações” são ortogonais em relação à “devolução de salários, pensões e direitos”.
Clara Ferreira Alves, com mais estrondo, descobre-se “anticomunista”, signifique isso o que significar. Portugal é um problema de atraso cultural perpétuo, conclui ela: “Basta ir a Londres e à Tate Modern, e visitar a exposição ‘The World Goes Pop’, para ver como Portugal não consta desta revolução”, e nesse limbo do atraso vingou o PCP durante a ditadura. Depois, descobre Ferreira Alves, nada de confusões: “O contributo de forças como o PCP e o Bloco para a democracia portuguesa é importante, apesar destes desníveis. Mas só é importante por ter sido enquadrado e travado pelo socialismo democrático dos socialistas e a social-democracia dos sociais-democratas.” O centro foi tudo mas agora encaixou-se e está ameaçado pela esquerda, enfim destravada.
Miguel Sousa Tavares, sempre mais directo, acha simplesmente que “dificilmente esta história acabará bem” (o que, consoante o tempo que se lhe dê, será garantidamente um dia verdade e outro dia deixará de o ser), porque “tudo parece girar à roda de quanta mais despesa do Estado será necessária para acolher as benfeitorias que cada um (dos partidos) propõe”. E há temas que o tiram do sério, como o fim dos exames da quarta classe que, como toda a gente sabe, foi a grande inovação do quartel-general cratista da 5 de Outubro para ensinar pedagogia a uma Europa relapsa. Tudo mal nesse acordo do PS com a esquerda.
O que há de comum entre estas três posições, porventura representativas de outras, embora muito especiais como o são os seus autores, é que apoiavam o centro e sem dúvida desejavam a sua vitória. Mas a realidade eleitoral complicou tudo e, perante a pressão desta crise política, um desloca-se para a direita, outra redescobre-se visceralmente “anticomunista” e sente a necessidade de o proclamar e outro bombardeia o novo governo como se estivéssemos no dia do juízo final.
Ora, este é um sintoma do que é algum do centro neste momento. Perturbado com a simples ideia de devolver salários e pensões, depois de nos anos anteriores se ter compungido com os sofrimentos dos pobres trabalhadores e dos velhos, este centro não tolera a prova da escolha. Amedrontado, parece ficar à espera de que não aconteça nada. Melhor com os senhores do costume, habituados que estamos ao fato de Príncipe de Gales do vice-primeiro-ministro e ao canto coral do primeiro-ministro, do que na aventura assustadora do aumento do salário mínimo para 530 euros, isso nunca.
Outros, que há um par de meses eram entusiastas da negociação da dívida, a começar por alguns do PS, preferem hoje que fique tudo esquecido, porque o clima não está para essas coisas, a Grécia assustou as boas almas, vão andando que eu vou lá ter.
Só que, e aí é que está o busílis, falta ao centro a alternativa onde lhe sobra indignação. Há um vislumbre de resposta sobre como gerir as contas públicas? Nada, só o temor reverencial à “Europa”. Há uma palavra sobre como criar emprego ou onde por as fichas do investimento? Nada, os mercados dirão. Há um gesto acerca deste indignante desbaratar de bens públicos ou da teia de interesses entre a banca e a decisão política? Não se espere tanto. Nem se deveria esperar, o centro é o lugar onde não se decide nada, obedece-se à “Europa”.
Porque não tem nada a propor e prefere nada fazer, o centro está a desfalecer. Por isso não me surpreende que alguns dos seus ideólogos ou praticantes se sintam agora forçados a sair para o lado. Só posso elogiar a sua sinceridade e a sua presciência. O que nos estão a dizer é que a esquerda pode e deve enfrentar a direita e que ninguém mais o fará, se não ela.
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terça-feira, 29 de setembro de 2015
Vasco Pulido Valente - e Francisco Louçã.
"Tudo Menos Economia"
Em: nao-ha-nada-a-fazer-tenha-paciencia
Por Francisco Louçã.
Em: nao-ha-nada-a-fazer-tenha-paciencia
Por Francisco Louçã.
Portugal não tem cura, é uma piolheira, a política é um manicómio e a elite, de alto a baixo, é uma bosta, já se sabe. Mas há um homem para nos relembrar todas as semanas essa evidência. Assinalo a grandeza deste preclaro salvador e desbarreto-me perante ele. Veja o leitor ou a leitora o inventário dessa luminosidade.
Ele, o Dr. Vasco Pulido Valente, começa por cima quando pergunta se alguém, que não ele, nos pode salvar. Ora, ele sabe que, em Belém, “o dr. Cavaco exibe a cada passo, até nos mais pequenos pormenores, a sua incapacidade para o cargo em que infelizmente o puseram. (…) O sr. Presidente da República devia daqui em diante observar um silêncio penitente e total, com o fim meritório de não assanhar a crise que ele consentiu e em parte criou.”
Assim, “hirto e rígido, o dr. Cavaco, apesar de 20 anos de poder, nunca verdadeiramente percebeu o que era a política, como não percebe o enorme problema que a sua obstinação criou ao país (e estará) a partir de Janeiro oficialmente morto e a partir de Fevereiro instalado no admirável conforto do Algarve e da reforma.”
Enterrado o presidente, que não nos salva, restam talvez o primeiro-ministro, o governo ou os partidos.
Mas é evidente que “o desdém hoje comum pelo primeiro-ministro, que nem chega a ódio, vem do facto prosaico de que as pessoas não o levam a sério. A diatribe pueril e errada sobre os jornalistas e os comentadores não excitou ninguém. É o que se espera da criatura.”
Enterrado o presidente, sai o primeiro-ministro, também não nos salva. Sobreviverão o governo e os partidos?
Nunca, o governo e os partidos são insondáveis na sua baça estupidez. “Informado ao pormenor sobre os malefícios de Pedro Passos Coelho, de Paulo Portas, da sra. ministra das Finanças e de mais meia dúzia de ‘notabilidades’ sem consequência, o cidadão comum não percebe os propósitos do Governo ou da oposição. As futilidades que os chefes trocam na rua, na televisão e no Parlamento não lhe servem de nada.”
Por isso, o governo só procura fugir da sua obra e esconder-se dos indígenas. “Resta que o futuro dos génios que nos pastoreiam parece duvidoso. O primeiro-ministro arranjará com certeza um lugar condigno. Pires de Lima e Paulo Macedo também. Alguns voltarão a um escritório de advogados, que é uma boa maneira de continuar na política à socapa. A maioria ficará depenada e só. E mesmo que Portas se retire para Caxias-Colombey, não pode contar que o ponham em Belém daqui a vinte anos.”
Enterrado o presidente, defenestrado o primeiro-ministro, disperso o governo, esquecido o vice-primeiro-ministro, ignorados os partidos, o que sobra em Portugal, quem nos salva?
Ninguém nos salva? Alto. O Dr. Vasco Pulido Valente, num raro mas assinalável momento de humildade, descobriu outro que, como ele, ainda nos pode salvar. Apresente-se o salvador:
“Mas nada chega à indiferença olímpica de Miguel Beleza. Pensa Beleza que ‘saia’ a Grécia ou ‘saia’ Portugal, isso teria ‘pouca influência’ na zona euro. E acredita, evidentemente, que a bancarrota da Grécia não iria provocar grandes sarilhos cá por casa. O dr. Miguel Beleza é um sedativo na berrata estabelecida. O que me permitirão descrever como a ‘economia institucional’ anda muito nervosa. A ‘economia de esquerda’ (?) fala em ‘carnificina social’ e em ‘retrocesso’ da civilização. O português comum esvoaça no meio da barafunda. Só o dr. Beleza pachorrentamente dá o seu passeio e consegue aguentar a trepidação alheia. De quem Portugal precisa é do dr. Beleza e não do bando de excitados que se esganiça por este pobre país, sem saber o que pensa e o que quer. Deixem de pensar em desgraças. O dr. Beleza sabe mais do que nós. Não tirou um curso na Lusófona; tirou um doutoramento no M.I.T..”
Só que o homem é pasmado, indiferente, olimpicamente indiferente, pachorrento até – mas é doutorado no MIT, o que eleva a indiferença olímpica às latitudes de Boston. Sabe tudo e não faz nada, “consegue aguentar a trepidação alheia” com o seu silêncio distante, mesmo que sinta o português, coitado, a “esvoaçar no meio da barafunda”. Por isso, a verdade é esta: nada, nem este salvador sedativo, “nenhum homem – ou mulher – inteligente e cordato se meteria voluntariamente nesta sopa turva”. Um sarilho que os indígenas nem conseguem perceber.
Pululam conversas de café e candidatos presidenciais avulsos pois, “fora isto, que não é pouco, aparecem quase dia a dia ajuntamentos com um papel na mão, que pretendem promover causas sem sentido, a roçar a pura idiotia, e se manifestam por aí com o vocabulário e a ênfase de uma religião apocalíptica. Claro que a desagradável tendência para a exibição (e a exposição) explica uma parte substancial deste amor romântico pelo espectáculo. A personagem obscura da sociedade portuguesa descobriu de repente que a política era um bom caminho para a ‘fama’; e a crise, naturalmente, produziu a sua própria colheita de ‘famosos’.”
Nada. Nem presidente, nem primeiro-ministro, nem vice, nem ministros, nem os seus partidos, menos ainda os seus candidatos, ninguém nos salva, nem o pacato doutorado no MIT.
A bem dizer, só sobra o Vasco, o próprio Vasco, tão só que dá pena, ele que foi governante com o presidente “hirto e rígido”, deputado com o partido “que ninguém leva a sério” e apoiante de candidatos presidenciais tão pululantes nesse “amor romântico pelo espectáculo”.
Bem sabe portanto do que fala, o que é o melhor elogio que se pode fazer a um áugure. É por isso que tanto estimo a prosa do Vasco, homem previsível e até fácil: sabemos sempre o que ele vai escrever, limita-se a confirmar a sua certeza sobre esta choldra piolhosa que se tornou uma barafunda e uma berrata.
Alguém tem que segurar o leme deste triste país, senão para o dirigir, pelo menos para o lamuriar bem lamuriado.
Ele, o Dr. Vasco Pulido Valente, começa por cima quando pergunta se alguém, que não ele, nos pode salvar. Ora, ele sabe que, em Belém, “o dr. Cavaco exibe a cada passo, até nos mais pequenos pormenores, a sua incapacidade para o cargo em que infelizmente o puseram. (…) O sr. Presidente da República devia daqui em diante observar um silêncio penitente e total, com o fim meritório de não assanhar a crise que ele consentiu e em parte criou.”
Assim, “hirto e rígido, o dr. Cavaco, apesar de 20 anos de poder, nunca verdadeiramente percebeu o que era a política, como não percebe o enorme problema que a sua obstinação criou ao país (e estará) a partir de Janeiro oficialmente morto e a partir de Fevereiro instalado no admirável conforto do Algarve e da reforma.”
Enterrado o presidente, que não nos salva, restam talvez o primeiro-ministro, o governo ou os partidos.
Mas é evidente que “o desdém hoje comum pelo primeiro-ministro, que nem chega a ódio, vem do facto prosaico de que as pessoas não o levam a sério. A diatribe pueril e errada sobre os jornalistas e os comentadores não excitou ninguém. É o que se espera da criatura.”
Enterrado o presidente, sai o primeiro-ministro, também não nos salva. Sobreviverão o governo e os partidos?
Nunca, o governo e os partidos são insondáveis na sua baça estupidez. “Informado ao pormenor sobre os malefícios de Pedro Passos Coelho, de Paulo Portas, da sra. ministra das Finanças e de mais meia dúzia de ‘notabilidades’ sem consequência, o cidadão comum não percebe os propósitos do Governo ou da oposição. As futilidades que os chefes trocam na rua, na televisão e no Parlamento não lhe servem de nada.”
Por isso, o governo só procura fugir da sua obra e esconder-se dos indígenas. “Resta que o futuro dos génios que nos pastoreiam parece duvidoso. O primeiro-ministro arranjará com certeza um lugar condigno. Pires de Lima e Paulo Macedo também. Alguns voltarão a um escritório de advogados, que é uma boa maneira de continuar na política à socapa. A maioria ficará depenada e só. E mesmo que Portas se retire para Caxias-Colombey, não pode contar que o ponham em Belém daqui a vinte anos.”
Enterrado o presidente, defenestrado o primeiro-ministro, disperso o governo, esquecido o vice-primeiro-ministro, ignorados os partidos, o que sobra em Portugal, quem nos salva?
Ninguém nos salva? Alto. O Dr. Vasco Pulido Valente, num raro mas assinalável momento de humildade, descobriu outro que, como ele, ainda nos pode salvar. Apresente-se o salvador:
“Mas nada chega à indiferença olímpica de Miguel Beleza. Pensa Beleza que ‘saia’ a Grécia ou ‘saia’ Portugal, isso teria ‘pouca influência’ na zona euro. E acredita, evidentemente, que a bancarrota da Grécia não iria provocar grandes sarilhos cá por casa. O dr. Miguel Beleza é um sedativo na berrata estabelecida. O que me permitirão descrever como a ‘economia institucional’ anda muito nervosa. A ‘economia de esquerda’ (?) fala em ‘carnificina social’ e em ‘retrocesso’ da civilização. O português comum esvoaça no meio da barafunda. Só o dr. Beleza pachorrentamente dá o seu passeio e consegue aguentar a trepidação alheia. De quem Portugal precisa é do dr. Beleza e não do bando de excitados que se esganiça por este pobre país, sem saber o que pensa e o que quer. Deixem de pensar em desgraças. O dr. Beleza sabe mais do que nós. Não tirou um curso na Lusófona; tirou um doutoramento no M.I.T..”
Só que o homem é pasmado, indiferente, olimpicamente indiferente, pachorrento até – mas é doutorado no MIT, o que eleva a indiferença olímpica às latitudes de Boston. Sabe tudo e não faz nada, “consegue aguentar a trepidação alheia” com o seu silêncio distante, mesmo que sinta o português, coitado, a “esvoaçar no meio da barafunda”. Por isso, a verdade é esta: nada, nem este salvador sedativo, “nenhum homem – ou mulher – inteligente e cordato se meteria voluntariamente nesta sopa turva”. Um sarilho que os indígenas nem conseguem perceber.
Pululam conversas de café e candidatos presidenciais avulsos pois, “fora isto, que não é pouco, aparecem quase dia a dia ajuntamentos com um papel na mão, que pretendem promover causas sem sentido, a roçar a pura idiotia, e se manifestam por aí com o vocabulário e a ênfase de uma religião apocalíptica. Claro que a desagradável tendência para a exibição (e a exposição) explica uma parte substancial deste amor romântico pelo espectáculo. A personagem obscura da sociedade portuguesa descobriu de repente que a política era um bom caminho para a ‘fama’; e a crise, naturalmente, produziu a sua própria colheita de ‘famosos’.”
Nada. Nem presidente, nem primeiro-ministro, nem vice, nem ministros, nem os seus partidos, menos ainda os seus candidatos, ninguém nos salva, nem o pacato doutorado no MIT.
A bem dizer, só sobra o Vasco, o próprio Vasco, tão só que dá pena, ele que foi governante com o presidente “hirto e rígido”, deputado com o partido “que ninguém leva a sério” e apoiante de candidatos presidenciais tão pululantes nesse “amor romântico pelo espectáculo”.
Bem sabe portanto do que fala, o que é o melhor elogio que se pode fazer a um áugure. É por isso que tanto estimo a prosa do Vasco, homem previsível e até fácil: sabemos sempre o que ele vai escrever, limita-se a confirmar a sua certeza sobre esta choldra piolhosa que se tornou uma barafunda e uma berrata.
Alguém tem que segurar o leme deste triste país, senão para o dirigir, pelo menos para o lamuriar bem lamuriado.
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