terça-feira, 22 de outubro de 2019

A Mentira e a Verdade – Segundo o "Evangelho" de Fernando Pessoa


"Sou, em primeiro lugar, um raciocinador, e, o que é pior, um raciocinador minucioso e analítico. Ora o público não é capaz de seguir um raciocínio, e o público não é capaz de prestar atenção a uma análise. Sou, em segundo lugar, um analisador que busca, quando em si cabe, descobrir a verdade. Ora o publico não quer a verdade, mas a mentira que mais lhe agrade. Acresce que a verdade - em tudo, e mormente em coisas sociais - é sempre complexa. Ora o público não compreende ideias complexas....
Sou, em terceiro lugar, e por isso mesmo busco a verdade, tão imparcial quanto em mim cabe ser. Ora o público, movido intimamente por sentimentos não por ideias, é organicamente parcial... De aqui parece dever concluir-se que um estudo raciocinado, imparcial, cientificamente conduzido, de qualquer assunto é um trabalho socialmente inútil. Assim de facto é. É, quando muito, uma obra de arte, e mais nada". Vox et praeterea nihil (voice and nothing more : sound without substance).


E, noutro escrito:

PORTUGAL, VASTO IMPÉRIO - Um inquérito nacional
A resposta de Fernando Pessoa:
(...)
Questão: IV - Sim ou não o moral da Nação pode ser levantado por uma intensa propaganda, pelo jornal, pela revista e pelo livro, de forma a criar uma mentalidade colectiva capaz de impor aos políticos uma política de grandeza nacional?

Na hipótese afirmativa, qual o caminho a seguir?
Há só uma espécie de propaganda com que se pode levantar o moral de uma nação — a construção ou renovação e a difusão consequente e multímoda de um grande mito nacional. De instinto, a humanidade odeia a verdade, porque sabe, com o mesmo instinto, que não há verdade, ou que a verdade é inatingível.  

O mundo conduz-se por mentiras; quem quiser despertá-lo ou conduzi-lo terá que mentir-lhe delirantemente, e fá-lo-á com tanto mais êxito quanto mais mentir a si mesmo e se compenetrar da verdade da mentira que criou.  




  Mas Fernado Pessoa não foi o primeiro a compreender as idiossincrasias dos grupos populares. Gustave Le Bon já tinha percorrido esse caminho. Há até quem afirme que outros as descobriram, e delas fizeram uso, milenios antes de Gustave Le Bon.
 













 

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