quinta-feira, 1 de março de 2018

Açorianidade  [II]
Vitorino Nemésio
Ponta Delgada. Revista Insula  - Julho e Agosto de 1932

 
O descobrimento português dos Açores em 1432 vale como prefácio das grandes devassas marítimas que culminaram no fim do século com a rota da Índia e o achado do Brasil. Portugal, fixado como território da Península, limitara a noção de “aquém e além” ao peristilo  mediterrâneo: ia alargar pelo mar tenebroso os seus limites de água e criar em orlas remotas núcleos de alargamento.

Em si mesmos, os Açores valiam pouco. Talvez significassem a princípio uma possibilidade de rumo português à alta América, tentado pelos Corte Reais, João Fernandes, navegadores meio obscuros como aquele Pero de Barcelos cuja inscrição tumular gastavam os pés dos pescadores na Igreja da Misericórdia da Vila da Praia da Vitória. A lenda, que Chateaubriand se apressou a recolher nos Natchez, descobria um penedo antropomórfico nas solidões do Corvo que parecia apontar nesse sentido. Mas a breve trecho as ilhas remergulharam no silêncio, salvado apenas pela onda das enchentes nas horas de drama telúrico.

Por isso o destino dos Açores me parece ser historicamente um limbo de obscuridade. A sua história interna, própria, sem intromissões de fora parte, desenvolve-se num quadro de pequenas vicissitudes que só alguns dramas, encenados lá, vão quebrando. As ilhas fizeram-se viveiro de experiências políticas exteriores. Para lá foi tentar resistir D. António, e a Restauração  montou ali tardiamente a sua máquina.

Mas a grande página de história insular é o Liberalismo. O português  que se sente novamente europeu lá vai preparar, depois do exílio, a invasão da europeidade — e o Robinson nacional encontra na Terceira a sua ilha. É — di-lo Herculano — “o rochedo da salvação”.

Com efeito, a grande aventura não podia encontrar melhor teatro do que essas ilhas perdidas e  meio dormentes no Atlântico, que  Palmela, obrigado a amplificar tudo por exaltação romanesca e por táctica, chamava os “Estados da Rainha”.

Afora estes dramas, cuja emotividade se destinaria a embeber de aventura o ilhéu preso, permanecendo-lhe até certo ponto como que alheia  e excessiva, a vida açoriana insistia numa mediocridade deliciosa, feita de mar e de lava, e do que o mar e a lava precipitam: sargaços, peixes, piratas, um pouco de enxofre e sismos. Neste círculo se apertava  a vida do açoriano, até que a  sedução do mar envolvente se tornava mais forte do que ele. Vinha a emigração.

Para um país que fosse  senhor dos mares e não  simplesmente o seu primeiro ocupante histórico (uma Inglaterra, uma América do Norte ou mesmo uma Itália inquieta e bastante provida de estaleiros), os Açores seriam uma destas  bases de refresco cheias de idas e vindas, povoadas de um alto frenesim que, a par das nuvens, acrescentaria ao crocitar dos cagarros o roncar dos aviões. Assim, com uma velha canhoneira em estação num dos portos, fazendo no Verão a escala turística das suas cidadezinhas, Portugal tem mantido naquelas solidões uma soberania obscura, indisputada e modesta.

São terras de paz e de esquecimento. Levaram quatrocentos anos para darem à Metrópole o espírito português mais inquieto — Antero de Quental — e mantiveram-se no seu magnífico apartamento, como afloramentos destinados apenas às garras das aves marinhas.

Eram o património dos altos infantes de Avis. O ducado de Viseu e o senhorio da Covilhã aumentavam-se daquelas possessões sem rendimento nem futuro, que davam às vezes aguada às naus da Índia depois que Vasco da Gama foi deixar na Terceira o cadáver do irmão. Melhor do que o túmulo de Paulo, os Açores deviam ter sido a campa solene onde ardessem constantes os lumaréus do mar. Têm, não sei porquê, a configuração de túmulos, e uma imponência a que as nuvens baixas dão uma luz de cripta. Temo que não são terras vivas. Falta-lhes a tal animação que só lhes viria de uma estação naval e aérea — do sonho, enfim, que não está nas nossas cansadas mãos fazer realidade.

E, todavia, lá vivem almas portuguesas das rijas e lá se passa uma comédia humana que tem, pelo menos, a grandeza da solidão.

Soa meio milénio sobre o descobrimento das ilhas e o tempo festeja-se a si  mesmo com alguns dramáticos tremores. A Povoação, onde aportaram os primeiros colonizadores idos da ilha vizinha, rui para se lembrar. Não parece um capricho do destino em reservar aquelas terras para palcos de vida obscura e apesar de tudo inquieta?”

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